(Ver)me


22 de abril de 2012 por Juliana Izabeli

O silêncio consciente é perturbador por vezes. Desmembra-se em concurso de reminiscências e invasões de pensamentos indesejados. No sacudir dos lençóis, sobre os quais repousam os conflitos, levantam-se as incertezas em poeira que cega os olhos para o exposto material efêmero. Resta, em última instância, sufocá-los com travesseiros de penas. Penar em pensar como fazê-lo. Uma península do corpo desenha-se no chão, por onde rastejam as serpentes da gênese humana, onde coexistem os vermes dos esgotos da alma, maculada após o percurso (em natureza) profano.

É durante este silêncio perturbador que se revela a maldade antes miniatura. Aquela dor que antes lateja disfarçada e, a seguir, toma toda a matéria corpórea e cada percurso do minuto. Não permite o desvio de sentidos. Todos eles são engolidos (ou tragados como vício) por um sentido superior ao lance oblíquo de retinas – retidas nos noventa graus, perpendiculares ao foco prevalecente em frações da existência-recruta.

Eis a gruta íntima sem lanternas ou quaisquer feixes de luz artificial. O mergulho íntimo e intransferível que prepara o grito mudo, estático; que faz a dor florescer em células malignas. O câncer essencialmente humano. Demasiado humano. O escarcéu. O céu in(terno). Que dispõe mansos cordeiros aos pés de Deus. Uma imperfeição consoante. Uma relativa perfeição destoante do pressuposto inconcusso. (Re)pulsa. Faz-se a valsa avulsa, reclusa. Continue lendo »

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Apuã


22 de abril de 2012 por Juliana Izabeli

 

Apuã servia-se das árvores e a elas servia. Isso para ele era tão natural quanto beber a água, tomar banho nos rios e ver todos os dias a mesma água: límpida e insípida; receptiva e grandiosa em extensão, força e imponência.

Apuã era ágil em suas caçadas amadoras, peripécias e traquinagens. Mas o menino-índio não sabia o que havia exatamente além das árvores, águas e aldeias. Sabia (isso pensava todos os dias) que um amigo de verdade era o bastante para respirar os minutos da vida e isso estava além, num lugar vazio de suor e sangue; cheio de afeto e cores.

Apuã precisava ir à escola, ir além daquele espaço concreto: além das árvores, águas e aldeias; precisava buscar recursos, leituras, conhecimentos. Aquele seria o dia de experimentar as novidades para entender que a vida não era só o que estava ali: tão perto, tão fácil, tão simples. A vida era, em novos tempos, um complexo de coisas em coisas pequenas que tinham preço de coisas grandes. Todavia, pensaria adiante, que essas coisas eram sem grande valor para quem precisava apenas de aldeias, árvores, águas e amigos. Bastavam a Apuã o gosto e a cor das sementes. Contudo, o menino-índio precisava, segundo os novos tempos, compreender outros setores pelos quais passariam as sementes e deixá-las germinar em saberes. Continue lendo »

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Apascento (entre aspas e acentos)


19 de abril de 2012 por Juliana Izabeli

Falo pouco
Escrevo menos ainda.
Entre bandeiras
E escolhas,
O tempo de agora.
É uma lacuna
Em dias púrpuros.

Não há espaço
Para melancolia
Nem resignação.
O futuro ruge
Enquanto escorrem
Pela garganta
Gotas de limão.

O silêncio
Amargo
Azedo
Reserva
O doce laranja lima.
A voz se interrompe:
Pausa… Prazo. Continue lendo »

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