Memórias de um apaga(dor) – Poesia


Em 16 de abril de 2013 por linhaseversos

angústiaTudo vale a pena
Se a alma não empena.
Meu trabalho, senhores,
Não fede nem cheira.

Resisto.
Recito.
Insisto.
Incito.
Suplico.
Simplifico.
Fico.

Meu combustível
É etanol,
Não do milho,
Mas da cana:
Sustentável,
Não poluente.
Contudo,
Minhas usinas
Fecham:
Não há vagas.

Meu céu é infinito
E me sinto asteroide.
Cometas em
Lampejos de lucidez.
Uma embriaguez
Em meio a tanta loucura
E razões ilógicas.

E a erva aqui é outra:
Origanum vulgare.
Haja orégano,
Senhores,
Para tanta pizza
E pouca divisão.

No mediterrâneo,
Entre mares e oceanos,
O povo é povo
Em qualquer lugar.
E eu sou parte daquele,
Da terra brasilis.

Entretanto,
Entre tantos,
Minha mente
Não caminha
Léguas mecanicamente,
Não pega ônibus,
Trem ou van.
Sobrevoa o caos
Em jato particular.
Um rapto
De minhas vagas ações
Em minhas divagações.

Minha mente
Não se envaidece;
Embebe-se
Em etanol,
Na ingênua
Tentativa
De esquecer.
Um tempestivo
Desapego.

Perco- me
No universo
De minhas
Angústias,
Quando, raro,
Ouço
O silêncio
Indecente,
Desnudo.
Verdade
Estupidamente
Crua.

Eu, asteroide,
Viajo em torno do sol.
Ora esbarrando
Em órbitas,
Ora divagando
Pela imensidão
Do negrume,
Engolido pelo vácuo
De estrelas mortas
Ou ofuscadas.

Lanço-me ao mar
Em busca de estrelas.
Desbravo oceanos:
Uma outra imensidão.
Sinto-me
Como pescador
A remendar
A rede de pesca.
Lanço-a ao mar
E no fim consigo
Um peixe nobre,
Vida que persiste.

Canso-me, então,
De controlar sardinhas
Em panelas de pressão.
Tarefas e tarrafas.
Diálogos diáfanos.
Farrapos voláteis.
Vozes veladas.
Valiosas vozes.
Vida e labuta
Entre consoantes
Sonoras e surdas.
Sons com obstrução.

Vejo-me
A costurar retalhos.
Tudo é tessitura, senhores.
Mas o tecido puído
Não aceita remendos,
Não há como cerzir.
Perco o retalho de seda
Para a liquidação
De mão de obra barata,
Desqualificada:
Um apagão intelectual.
Um borrão,
Um mata-borrão.

Soberana,
Mas não soberba,
A poesia me espreita,
Cutuca-me o ombro
E sussurra ao meu ouvido:
-Vamos, acorda!
Está na hora…
Prepara-te para a luta!
A palavra é teu etanol.
Vamos lá, abra a usina.
É um susto ou uma sina?
Ressuscite o r velar.
Véu em mar.

A dor é finita,
Episódica.
A alegria é o riso
Enfeitado de doçura:
Orgânica e intrínseca.
A tristeza é o silêncio
Disfarçando gritos
Surdos de loucura.

Habemus uerbum!
Solucionemo-nos!

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 27 de março de 2013)

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