A última canção de ninar para Isabella


Em 27 de março de 2010 por linhaseversos

Desculpar é humano, perdoar é divino, absolver é judicial. Julgar e condenar são ações que nós, mortais, em qualquer posição ou situação, praticamos com ar de soberania, com pretensão de sabedoria.

Somos todos advogados – principalmente – de atitudes alheias.

Somos anjos e demônios também. Julgar nos confere poder. Poder de raciocínio (lógico ou não). Poder de opinião.

Poder de construção. Poder de destruição. Poder de renovação. Poder de ressurreição. Poder de podridão. Malhamos o Judas, desde “sempre”; “jogamos pedra na Geni”, quando nos interessa.

No dia de hoje, reservo a minha voz para o poder do clamor público. Passados dois anos, o caso Isabella Nardoni volta à mídia. Com ele, as manifestações, as dores, as lágrimas, impressas em faces, corpos, camisetas e cartazes; as verdades e as mentiras tecnicamente declaradas. Os jornais, sites, blogs, twitters divulgam as últimas notícias, estampam fotos, promovem a polêmica, obrigam posicionamentos, abrigam desabafos.

Contudo, nenhuma dessas fontes de informação (ou troca de insultos) tem o “PODER” de atenuar a dor imensurável da mãe Ana Carolina Oliveira, de oferecer-lhe um cicatrizante, de trazer-lhe a filhinha para um último colo.

O luto de uma Mãe me parece escandaloso no primeiro momento, mas silencioso até o último dia de sua vida.

A mãe que perde um filho não fica “órfã”, e sim amputada em espírito. Parimos nossos filhos, com ou sem dor, mas não contamos com possibilidade da morte precoce deles, não imaginamos a dor que deve nos rasgar ao ter que enterrá-los ou cremá-los. Dada a descrição da morte de Isabela, vítima de crime hediondo, creio que a semana deva ter, sobretudo, potencializado as dores da mãe. No entanto, acredito não menos que Ana Carolina Oliveira precisasse desse momento para assistir à justiça brasileira semeando credibilidade em palco de tantos teatros.

A condenação do casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá não representa simplesmente um “alívio” para a sociedade, mas um exemplo de justiça funcional em meio à crise ética e moral que vive o nosso país. A defesa fez o seu papel; Cembranelli, a partir do discurso lúcido e contundente, cumpriu a sua missão. Deixemos, então, Ana Carolina Oliveira cantar agora a última canção de ninar para a menina Isabella descansar em paz.

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