Afetos, afagos, apegos


Em 18 de setembro de 2010 por linhaseversos

De repente floresceu uma vontade de falar sobre o que vale a pena nesta vida. Pensei no meu filho: absoluto no seu poder de me fazer acreditar que a nossa cumplicidade começa no olhar, passa pela fala distinta e se estende, infinita, na ternura que nos faz mãe e filho, conquanto persista uma poeira de discordância. Sem dúvida, não há disputa; ele reina e ponto.

Em instantes, meus sentimentos – muito antes dos meus olhos – percorrem um raio que circunscreve minha casa, e visualizo meu marido: dinamicamente estático no posto de leal companheiro. Não há, igualmente, concorrência para ele. É singular na arte de me fazer sua amada. Reticências…

Depois, viajando por terra e mar, pensei na minha família: meu pai – para sempre militar sem farda, sem guerra, sem ambição material -; minha mãe – para sempre general, mergulhada num mar revolto de oscilantes emoções; meu irmão – para sempre meu menino amado, meu raio de sol em uniforme amarelo-marrom; minha cunhada-prima, minha branquinha com suas pintas e pinturas, para sempre paciente no ser e no agir; minhas sobrinhas, flores do meu jardim no coração. Um pacote que não tem nada de governamental, político ou burocrático. É demasiado coerente nas imperfeições, demasiado coeso em lágrimas, sorrisos e soluções. Ponto de exclamação.

Em segundos, um lápis e um papel: meu papel-missão – e não sei mais o que de reinventado por pedagogos e filósofos da educação. E lá vou eu do inferno ao paraíso, transitando ora por intensa aflição, ora pelo êxtase de me sentir responsável pela evolução de outrem, ainda que tal corresponda a menos de cinquenta por cento do público-alvo. Regozijo-me. Descabelo-me. Não me parece, portanto, menos paradoxal declarar no íntimo que esse mar de oscilações diárias vale a pena, já que não raro traz consigo uma carga expressiva de afetos, afagos, apegos. Dois-pontos.

Dentre eles, destaco Rafaela: minha estrela-discípula das letras que, mesmo não desejando na alma superar o mestre, é de sua genuína sede pelo saber fazê-lo despretensiosamente: nasceu para ter luz própria. E com uma candura que não permite ofuscar o brilho de qualquer outra estrela.

Entre estrelas-discípulas, vejo Daiani, pequena no tamanho, gigante na essência de suas superações. Pinta e brilha no meu céu de recompensas e afetos. É caramelada minha doce Daiani. Tem cravo, canela e açúcar-mascavo. Gente grande que me veio em prenúncios de um conto da Lya Luft para colorir textos, para fazer-se relevante nos capítulos da minha vida. Iluminada no sorriso, ilimitada nas esperanças: sem ponto final.

Em tempo presente, ainda no meu campo de batalhas e glórias, fixa-se, em metas e projetos promissores, Isabelle. Não há um arranhão, uma fissura que comprometa sua preciosidade. É sinestésica a menina-moça, assim eu a percebo: doce – mais uma vez doce – no trato com as pessoas, suave na fala, firme em decisões e objetivos, clara no discurso e no caráter. Oito a dez no boletim, A no vestibular. Não se trata de nota ou conceito, vale mais o ser humano em si. Tudo que lhe é de direito está reservado. Mãe e filha: trajetória íntegra, limpa. Valeu a pena, sem dúvida. Sem interrogações.

E veio a mim, por último, embora em solo ressequido, Claudyane: uma menina com seus 12 anos (no máximo), portadora de sonhos, vontades e livros. Não mais do que isso. E precisaria? “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” A menina, sim, cativa e cultiva. Planta no coração e na mente o que há de mais importante para virar o jogo da sua dura realidade: saberes, pluralíssimos. E digo, somando-se à índole impecável, decerto não haverá cobras nem raposas que envenenem ou destruam sua índole, seus laços, sonhos, vontades, livros e saberes. Ela não perderá a vez nem a voz. Travessão.

Seguem todos seus cursos individuais em meus concursos: parênteses em prosas e versos da minha vida. Todos os que me são caros valem a pena. Vale a pena a palavra nova, arquivada ou reinventada. Vale a pena o sentimento. Valem a pena afetos, afagos e apegos. “Ponto, pulo a linha, travessão…E a palavra vem.”

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2010)

Comentários (6) | |

6 comentários to “Afetos, afagos, apegos”

  1. rafaela Disse:

    Aprendi que usar maiúsculas, ao navegar na Internet, é só para quando o meu mergulho é fundo – ‘pisce’ que sou; vou vivendo de! Talvez para me não perder no fluxo…
    Pois bem:
    Sei que tanto mudou. Tanto. Não sou mais a menina de 15 anos, nem vc a de 25… Mas permanecemos, sim, meninas na ciranda dessa vida

    : vamos de mãos dadas por tal mundo [louco] a fora [?].

    E se trocarmos nossos passos, que nossas migalhas – preciosas! –, deitadas ao longo dos anos, sirvam para trilhar nossos caminhos de volta. Porque estes são muitos, e os encontros são poucos. E porque poucos, imensuráveis.
    Isto é: que a amizade, ora plantinha; hoje essa árvore… seja regada com a medida do amor de cada uma. E, caso ele falte no cultivo, haverá sempre um ‘extra’, que guardo no final do arco-íris [escondido] – sabes o caminho.

    Um beijo – pulo ou mergulho. =)

  2. maria georgina Disse:

    Escritora nata.Demonstra um trato cuidadoso das palavras,compõe imagens fortes e sabe prender o leitor.Tudo que faz ,faz com propriedade e impecabilidade.Estou orgulhosa,Parabéns! Bjs.

  3. Claudyane Alves . T. 1602 Disse:

    Aii…
    Chorei.
    Obrigada , professora pela ‘moral’ !

  4. Claudyane Alves . T. 1602 Disse:

    (continuação)
    Professora ,
    gosto muitoo da senhora !
    Muito obrigada pelo carinho !
    Bjão (continuo amando as suas obras de ouro)

  5. Julio Disse:

    Como sempre, escreves muito bem! É vocação ou dom?
    Parabéns minha irmã, ruma a perfeição!

  6. Julio Disse:

    “rumo”, a gente comemos!

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