Afetos e (e)feitos: uma escrita de amor


Em 12 de junho de 2011 por linhaseversos

Não desisto de amar. É fato. “Amar vem do latim AMARE, ‘amar, gostar de’, possivelmente do Indo-Europeu AM-A-, que gerou palavras relacionadas ao crescimento de uma criança, como ‘mãe’, ‘mamar’, ‘mama’ etc.” Como dizia Clarice, “amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”.

Talvez a escrita e o afeto estejam presentes em minha vida desde muito cedo, ocupando papéis complementares, jamais em vias de segregação. Isso porque uma verdade irrefutável dá contornos ao meu caráter: o afeto – ingrediente indispensável aos meus feitos, inclusive os mais triviais.

E, muitas vezes, a expressão exata e quase involuntária vem através da produção escrita – longa ou breve. Diante do papel em branco, vejo-me transparente, sensível, sem capa, avessa e pronta para me fazer e(terna). Eis o momento da declaração de amor às minhas verdades e aos meus conhecimentos, construídos em estrada-serpente; às causas que abraço; aos discursos que endosso; aos exemplos que carrego num cabedal de experiências intransferíveis; enfim, às pessoas que fazem valer a pena.

O meu tesouro é, pois, imaterial: meus amores. No plural sim. Porque amo de maneiras diferentes, do despertar ao adormecer, com intervalos de pura ira. Amo de fato, em sonho, fantasia e ficção. Amo pessoas e suas histórias simplesmente tocantes. Amo palavras e livros em qualquer hora do dia. Amo música e poesia principalmente pela manhã. Amo cinema e pipoca sexta-feira à noite. Amo água doce e água salgada. Amo o silêncio e os sons da natureza. Amo o homem que vence o mal dentro de si e dissemina gentileza. Amo a Deus, que apresenta os caminhos, orienta e permite a escolha. Amo a perfeição divina tal qual a imperfeição humana, ambas confortáveis em suas respectivas existências essencialmente paradoxais. Amo minha família, insubstituível até nas suas incongruências.

Não se trata de banalização do amor; para isto, colocá-lo-ia no plano de sentimentos volúveis, circunstanciais. É demasiado nobre e justifica, até na bíblia, nossa efêmera existência humana. O amor é vocativo e aposto explicativo na minha relação a dois. Recebe as vírgulas que lhe dão merecido destaque. Como sou sujeito e objeto direto preposicionado, fazendo valer minha tonicidade, amo incondicionalmente a mim mesma. Neste sentido, minha voz é ativa, passiva e reflexiva na arte de amar.

Nunca “fora de moda”, uma vez que não se prende a tendências nem desfila em passarelas, o amor marca presença na literatura e ganha versões em vozes ora realistas ora utópicas. Lembro-me de Drummond em tempos modernos: “ainda assim te pergunto / e me queimando em teu seio, / me salvo e me dano: amor”. Demasiado inseguro em sua relação instável e oscilante, o sujeito poético é capaz de reconhecer, diante de tantas concessões em falas polidas, que se perde e se salva na experiência amorosa.

Reporto-me, então, para “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco. O amor “penitenciário” (não genuinamente platônico), na novela camiliana, leva a angelical e ao mesmo tempo enigmática Mariana à resignação diante de um amor irrealizável; contentando-se, portanto, apenas com a presença de Simão Botelho. Em seguida, deparo-me com o apimentado “Amor de salvação”, que faz um caminho oposto, no qual a experiência amorosa é carnal e revela a traição na pele da mulher-demônio Teodora.

Docemente, sem pretensões romanticamente impactantes, vem Manuel Bandeira para me conduzir a outro ritmo, quase prosaico: “Beijo pouco, falo menos ainda. Mas invento palavras / Que traduzem a ternura mais funda /E mais cotidiana. / Inventei, por exemplo, o verbo teadorar. / Intransitivo: Teadoro, Teodora”.

Avanço, agora enveredando por letras do amor oximoroso, cujo componente enraizado é o erotismo. Uma espécie de amor-paixão, esta ardente experiência, queima o corpo, faz a alma pelejar no seu inferno particular e salvaguarda as cinzas da saudade no relicário de suas ideias infundadas. Desfruta sensações em overdose e paga o preço alto da entrega e abnegação. Florbela Espanca declara sua preocupação com o Amor e seus constituintes inerentes: angústia, saudade, evocação da morte, entre outros. No poema intitulado “Toledo”, suas palavras sinestésicas: “As tuas mãos tacteiam-me a tremer…/ Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço, / É como um jasmineiro em alvoroço, / Ébrio de Sol, de aroma, de prazer!”

Em tempos de capas de revista estampando as relações descartáveis, vale a pena estimular o amor – que não precisa de cenários glamourosos e paradisíacos para se alimentar. Vale a pena sentir o amor na luz do dia desta manhã de outono. Vale a pena acreditar que é possível amar em essência. Amar pessoas, os momentos em tempo psicológico, a natureza em cores e sons, braveza ou serenidade. Vale a pena abandonar a marcha capitalista que prega a autossuficiência do indivíduo.

Como revelei no início deste texto, não desisto de amar. Encerro retomando minha lírica sensual-amorosa: “Em presença forte e silenciosa / O amor não faz barulho / Ele se alimenta de uma luz interior / Só eu posso decodificá-la em você / E vice-versa.”

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 12 de junho de 2011)

Comentários (3) | |

3 comentários to “Afetos e (e)feitos: uma escrita de amor”

  1. rafaela Disse:

    “eu te amo de alma para alma
    e mais que as palavras,
    ainda que seja através delas
    que eu me defenda…”

    o amor é [sem predicativos]!

    =*

  2. Milena 901 Disse:

    Quando eu crescer, quero ser uma jornalista tão boa quanto minha professora! Quanto orgulho de ser sua aluna…

  3. Claudyane Disse:

    IMCOMPARÁVEL… Sem mais adjetivos!
    Tenho muita sorte em conhecê-la. Saber que eu posso ler suas obras-primas em qualquer momento. Obras que me fazem – principalmente – refletir e associá-las ao meu cotidiano…
    Sorte também em saber que a senhora nunca perderá seu talento, pois ele é essencial para mim.
    Abraços!

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