A(gua)cento


Em 6 de junho de 2010 por linhaseversos

A água é o que me traduz nas emoções mais intensas e extremas, por vezes. De maneira que me encharca fazendo dos meus poros poças espelhadas. Sou capaz de mergulhar em mim através deles. De me ver sinuosa, adaptável ou resistente. Chovo com facilidade, e não há prognóstico para isso. Fertilizo minhas dores abrindo semeaduras. Não me nego às águas. Em nada lembro folha seca. Preciso da gota de orvalho na minha esperança verde a cada manhã.

Nasci água, de certo vou morrer água. Transbordarei muito até secar de vez. Ou quem sabe acabarei cascata, que não se sabe como pode jorrar tanto sem parar. A ponto de modelar as resistentes rochas e ao mesmo tempo desafiar a finitude das coisas e dos seres.

Digo que não me enterro nas pedras; lanço-as à distância em mar revolto de frustrações. Pedra é riqueza mineral bruta e estática. Não me é cara, mas imprescindível à minha própria lapidação. São elas que me fazem poeta. Que me mantêm sob a condição de discípula. Genuinamente arredia, alimento-me de venenos e maçãs para fazer valer meu estado de costela. Seria oximoroso ao raciocínio primeiro afirmar que não se trata de preço, mas apreço. Logo, assumo faltar àquele adjetivo o sufixo formador de seu superlativo. E lá vou eu, deslizando entre afixos, à deriva com manobras em ondas de radicais.

Temporais são essenciais à minha tempestiva calmaria. Assumo, pois, gosto especial por intempéries. Exerço natural atração sobre eles. Tenho atmosfera própria e dentro de mim habita uma tamanha diversidade geográfica, que convivem, lado a lado, um vulcão e uma gruta, por onde transitam dragões, cavalos-marinhos e águas-vivas. Brinco com eles salvando ou perdendo-me. Eles não dormem; velejam no ritmo da minha respiração por lágrimas e salivas. Meu vento movimenta-os em cursos e incursos. Em verdade, nem eu durmo. Repouso no meu estar inconsciente. Mergulho nas horas mais silenciosas por todas as inverdades que insistem em coexistir. E estas deságuam como córregos entre elevações e subterrâneos da minha alma.

Sou, em fluxo, elemento químico, H2O; morfema gramatical àgu-; extensão em partícula de luz. Vida em túneis estreitos, em rios vermelhos. Através das águas, comunico-me com Deus de modo honesto. E Ele escorre-me pelas mãos num curso de Criador, que busca a necessária distância da criatura. Entrelaçamo-nos em pura energia. Isso nos imprime reconhecimento. Reciprocidade.

Sob o chuveiro, lavo as impurezas da minha matéria; em mar, deixo meus pés se cobrirem de terra e a mãe d’água batizar-me em espírito, seguindo um balanço remetente ao balé ritualístico, numa coreografia que beija o infinito e consagra a fugacidade da carne em sopros de segundo.

A terra é meu solo, minha mente, meus passos, meu instante de hoje, meu segundo projetado de um ante amanhã. Nela finco minhas raízes; dela absorvo todos os nutrientes do adubo podre da humanidade para a minha razão demasiada humana.

O pó é o que me cabe nos instantes finais da putrefação de páginas escritas, lançadas à brevidade da vida de coisas ou na classe de matéria sem vida. Classificam-se seres e coisas. São expostos em vitrines ou liquidados em classificados do jornal, que, em trezentos e sessenta graus do menor ponteiro, embrulha o peixe na feira e limpa o vidro a ser lavado novamente pela água da chuva.

E volto eu, como num ciclo natural, à água. Sou lágrimas aos olhos de quem me sente. Sou ressaca aos olhos de quem me degusta em palavras. Sou rio em curso aos olhos de quem segue rumo à minha nascente. Que, na verdade, não passa de origem ou de contínua precipitação de mim mesma.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 06 de junho de 2010)

Comentários (2) | |

2 comentários to “A(gua)cento”

  1. rafaela Disse:

    és mesmo, agora, lágrimas aos olhos de quem te sente…

    astral e anímicamente pisciana, tb sou das águas; gosto daquilo q existe de profundo – sentimentos, sobretudo – e só mergulho quando, realmente, posso me afogar: renascer, ali, é inevitável consequência; o q, verdadeiramente, salva! 🙂

    beijo, minha floramada

  2. rafaela Disse:

    *o q foi aquele acento no adv.??? – era pra dialogar com o título! 😉 rsrs

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