Apuã


Em 22 de abril de 2012 por linhaseversos

 

Apuã servia-se das árvores e a elas servia. Isso para ele era tão natural quanto beber a água, tomar banho nos rios e ver todos os dias a mesma água: límpida e insípida; receptiva e grandiosa em extensão, força e imponência.

Apuã era ágil em suas caçadas amadoras, peripécias e traquinagens. Mas o menino-índio não sabia o que havia exatamente além das árvores, águas e aldeias. Sabia (isso pensava todos os dias) que um amigo de verdade era o bastante para respirar os minutos da vida e isso estava além, num lugar vazio de suor e sangue; cheio de afeto e cores.

Apuã precisava ir à escola, ir além daquele espaço concreto: além das árvores, águas e aldeias; precisava buscar recursos, leituras, conhecimentos. Aquele seria o dia de experimentar as novidades para entender que a vida não era só o que estava ali: tão perto, tão fácil, tão simples. A vida era, em novos tempos, um complexo de coisas em coisas pequenas que tinham preço de coisas grandes. Todavia, pensaria adiante, que essas coisas eram sem grande valor para quem precisava apenas de aldeias, árvores, águas e amigos. Bastavam a Apuã o gosto e a cor das sementes. Contudo, o menino-índio precisava, segundo os novos tempos, compreender outros setores pelos quais passariam as sementes e deixá-las germinar em saberes.

Apuã finalmente vestiu-se, pegou a sacola onde levava um aerofone – que acabara de aprender a tocar razoavelmente – seu pião, um bloco e um lápis preto usados pela metade. Seguiu rumo à pequena embarcação que o levaria para o outro lado do rio, onde havia uma escola indígena numa aldeia próxima. Pegou carona com outros índios-meninos, andou mais alguns metros e chegou ao novo lugar de descobertas: uma sala de aula improvisada. Lá estava a professora com quem teria suas primeiras aulas teóricas de Português. No mesmo instante, pensou como eles se entenderiam, afinal eram culturalmente diferentes. Equívoco, certamente. Ela assumira o compromisso por vontade própria, além disso, participava de um grupo de pesquisa sobre educação para indígenas – coisa inédita por ali.

Apuã sentou-se e reparou que, bem próximo, encontrava-se um menino-branco ensimesmado, portando um aparelho pequeno, do tamanho da palma da mão. Era o tal celular, pensou. Nos dias correntes, alguns índios até usam celular, assistem a novelas e compram tênis bacanas. Mas, não era o caso de Apuã. Ele era demasiado menino-índio; só queria saber de arcos, flechas, aerofones, piões, árvores, águas, frutas, sementes, coisas literalmente ao seu alcance. Queria aprender a fazer aquelas pinturas no corpo, a fabricar cestas, arcos, flechas, piões e instrumentos musicais. Queria sobrevoar apenas o seu território e manter-se junto das raízes de mandioca da sua terra. (Sempre dele, segundo ele mesmo, ainda que, para os homens-brancos, seria necessário ter um bocado de papéis que comprovassem o princípio, o meio e o fim de qualquer posse sobre terras).

Apuã ouviu muitas histórias naquele dia, entendeu que a língua portuguesa serviria para se comunicar com a “sociedade envolvente” (termo técnico bem aplicado), defender seus direitos, negociar sem ser enganado, redigir documentos e cartas sem a ajuda do branco, melhorar as condições de vida. A modalidade escrita, portanto, seria privilegiada. O menino-índio ficou pensando na possibilidade de ele esquecer o dialeto local, sua língua indígena, já quase em segundo plano pela aldeia “Água clara”. Os mais velhos até conservavam alguns diálogos no idioma materno, contudo os pequenos eram desde cedo introduzidos na cultura branca.

Apuã não parava de observar o menino-branco enquanto ouvia sobre a importância das aulas de Português. Num breve intervalo, o índio-menino e o menino-branco (até então) ensimesmado começaram a interagir. O pião foi o estímulo para o primeiro contato. Os dois pouco se deram ao trabalho de trocar palavras em português. A língua universal das crianças imperava triunfal, isenta de preconceitos socioculturais. Apuã ensinou o menino-branco a jogar pião, o menino-branco acabou lhe mostrando o seu avançado brinquedinho tecnológico. O tal aparelho não era um telefone celular, mas um videogame portátil, cheio de jogos avançados cujos objetivos eram sempre embasados na rivalidade: matar, derrubar, vencer o outro – supostamente inimigo – de qualquer maneira.

Apuã voltou para a sua aldeia pensando se tudo aquilo fazia mesmo sentido. O menino-branco havia lhe falado rapidamente sobre a importância que têm as coisas do seu mundo: através de computadores e alguns aparelhos telefônicos, as pessoas se conhecem, se informam, se comunicam e se divertem.

Apuã ficou pensando como o mundo era estranho mesmo. O menino-branco precisava derrubar, vencer, matar seres inexistentes para se divertir. Já ele, menino-índio, precisava aprender o português, a caçar, pescar, lutar para sobreviver. Apuã entendeu, então, que havia uma discrepância de necessidades.

Apuã ficou pensando como o mundo era doido mesmo. Ele precisava de muito espaço para fazer boa parte das coisas na sua rotina, já o menino-branco sequer saía do lugar. Então, o menino-índio entendeu o porquê de o menino-branco ficar tão cansado com uma simples brincadeira de pião.

Apuã ficou pensando como o mundo era injusto mesmo. Ele precisava pegar embarcação, andar um bom pedaço para chegar à sala de aula improvisada em outra aldeia, onde tinha aulas com professores índios e brancos para não ser enganado por homens brancos, enquanto o menino-branco, com pouquíssima idade, dominava aparelhos que cabiam na palma da mão, através dos quais podia fazer um monte de coisas. O menino-índio também entendeu que algo tão simples como um pião, na mão do menino-branco, haveria mesmo de se tornar muito complexo.

Apuã, depois de alguns doze minutos, ficou pensando como tudo aquilo era uma grande bobagem mesmo. Afinal, para ele bastavam as árvores, os rios, os amigos, os piões, os instrumentos musicais que aprendia a tocar, os desenhos no corpo que queria aprender a fazer e mais tudo que compunha a Natureza, a qual desde cedo aprendera a amar e respeitar.

Apuã sabia que todo dia era dia de índio.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 21 de abril de 2012)

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