Bullying, segundo eu mesma


Em 23 de abril de 2011 por linhaseversos

“… me preocupa o uso do termo “bullying” para demonizar toda molecagem e vitimizar toda fraqueza. Cada criança tem seu jeitão e sua porção de culpa por seus próprios dissabores. A violência desmedida deve ser contida, mas não às custas das lições que a experiência da vida franca ensina, com toda a dor que a acompanha.”
(Arnaldo Bloch)

Hoje à tarde, lendo a coluna do Arnaldo Bloch no jornal O Globo, despertei para discorrer sobre o assunto, saturado pelos oportunistas de plantão. Na verdade, o foco de discurso aqui não é o bullying propriamente dito, mas a indiscriminada abordagem, que vai da distorção ao exagero. Estou cansada de ouvir: “Professores, pais, educadores em geral devem buscar orientação com especialistas…” Aquele blá blá blá.

Pois é. Quem nunca teve um apelido na vida? Quem nunca foi vítima de piadinhas? Na infância, os apelidos surgem naturalmente, uma vez que a imagem do outro, criada por meninos e meninas, costuma ser caricatural. Além disso, ninguém nasce um quarteto fantástico de predicados, príncipe-gênio-modelo-simpatia, a ponto de não receber um apelido ordinário ou carinhoso que seja. E mesmo a suposta perfeição mereceria um apelidinho: “Perfeitinha!”. Ser chamada de “Divina” seria uma chatice.

Eu era a CDF do meu grupo de amigas. Adorava tirar as melhores notas e sabia que, ao chegar a minha vez de receber as provas, os colegas da turma cantavam a pedra: “Já sei, dez ou nove…” Eu ria e pensava: “Idiotas, fico de férias em novembro!”.

As brigas eram inevitáveis, e com elas vinham as decepções, os choros, as queixas, os bodes expiatórios. Criavam-se, a partir daí, estratégias de sobrevivência, o que ajudava a criança a amadurecer as relações com os outros e consigo mesma. Como dizia o poeta, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Na adolescência, meus cabelos lisos e minha pele morena me custaram apelido até para o pré-vestibular: Juliana Pocahontas, estampado na camisa. No ensino médio do CEFET, éramos um grupo de tantos outros: Camarão, Cheiroso, Placenta, Fizuca, Jabour, Lobisomem… Ninguém saiu atirando em criancinhas por isso.

No mundo dos adultos, o estilo chama a atenção e ajuda a enquadrar as pessoas em grupos por estereótipos: mauricinho é “o mala” de plantão, engravatado, com o cabelo penteadinho; o playboy e a patricinha são figuras fáceis, muitas vezes falsificadas, que estampam o poder de consumo em modelitos de grifes; o “pitboy” é o fortão que só malha os músculos e vive acompanhado de seu cão voraz, mais inteligente que ele, é claro; a loura burra não pode fazer uma besteira no trânsito (“Tinha que ser loura!”), o intelectual tem aquele papo-cabeça, cuja compreensão pelo interlocutor não passa de trinta por cento; entre outros.

E os professores? Como são vítimas de “bullying”! Já teriam cometido atrocidades em virtude dos apelidos colocados pelos alunos. Já pensaram quantas vezes uma turma inteira boicota a aula de um professor? Bolinhas de papel cruzando a sala de aula; avaliações cruéis de roupas, sapatos, cortes de cabelo…

O que deve preocupar e demandar ações imediatas, acredito, são intimidações; agressões verbais (principalmente as veladas, aquelas ao pé do ouvido) ou físicas, que levam ao pânico, isolam o indivíduo da sociedade, transformam-no em não ser, reprimem suas descobertas e relações com o mundo externo. Isso sim é a tal violência desmedida, que deve ser combatida.

Pelo amor de Deus, que tipo de adulto a televisão, ou melhor, os meios de comunicação estão ajudando a formar?
(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 23 de abril de 2011)

Comentários (3) | |

3 comentários to “Bullying, segundo eu mesma”

  1. Ju Diniz Disse:

    Juuuuuuuuuuu amei o texto fiquei com vontade de mandar o link para os meus amigos no facebook! Pode?
    beijos

  2. sirlene lima Disse:

    prof. tudo que gostaria de falar mas a mim faltariam as palavras é verdadeiro e sem hipocrisia tdb

  3. RICARDO BA$$MAN Disse:

    É verdade! Todo mundo tem um apelido na infância, eu não fui diferente; tive vários Shrek, Sobrancelha de Lobsomen, Dentuço, em especial “Gordinho” que por final virou digamos um psudônimo, mas como meu irmão também era “gordinho”, ficava difícil decifrar ambos. Daí meu irmão afinou e eu não…kkk
    Nas épocas de “bailes funks de corredor” virei herói…(em partes)kkk, pois havia um outro “gordinho”, porém “Gordo sujo”-Nunca o conheci, mas o cara tinha fama de batedor “brigão”, ele tinha 2m de altura por 1,5 de largura (impossível bater de frente com ele) e era muito rápido, dai eu me dei bem, mas não tinha tanta bravura como ele, mas tinha minhas artimanhas.
    Mas sobre o “Bullying”, vieram dar nome a isso agora porque? Tudo tem nome! Sempre apanhaei em escolas apesar do meu tamanho, mas quando cresci devolvi da mesma forma e não me arrependo, estou vivo, sã e salvo; o que importa é viver a vida.
    Como diz Mano Brown (Racionais Mc’s) “-Tem que saber chegar, entrar e poder sair em qualquer lugar…” é a lei da sobrevivencia!
    Sobre “Os Professores” nada a dizer, agora sobre “As Professoras” sempre adorei e amei,s empre fui tarados por elas, desculpe as palavras, mas é a forma mais é a forma sincera que encontrei de expressar no momento. Sempre aodrei professoras e o impressionate é que “As Profªs. de Português” sempre me ajuram e sempre foram como uma “mãe/esposa”…kkk. [Teve uma vez que fugi da escola e uma Profª. de Português queria se responsabilizar por mim(como se fosse algum resposável por mim, já que meus pais nunca iriam as reuniões escolares.), só pra eu terminar meus estudos, me arrependo da recusa até hoje!] Sempre me ajudaram, talvez este afeto tão grande por elas em especial as de Português/Literatura. É só…kkk…bjs e abçs!

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