Desaguando


Em 28 de maio de 2010 por linhaseversos

Pensava nele quando sentia a água quente do chuveiro escorrer sobre a pele. Isso acontecia nas horas solitárias e mais silenciosas. Talvez porque o silêncio externo se fazia necessário para a audição das vozes interiores. Os barulhos mundanos não permitem o fluxo de ecos do inconsciente. O deslembrar, na contramão do bom senso e da racionalidade, não era simples como a água que seguia a força centrípeta. As memórias não desciam pelo ralo. Talvez a envolvessem como se ela, sim, permitisse afogar-se em cursos de águas remotas. Estas eram solidárias aos quereres. Além disso, co-existia um tom solene, que impunha respeito como um ato ritualístico. Isso parecia essencial para a realização do circuito anacrônico.

Os olhos eclipsados permitiam o domínio dos outros sentidos. A água caindo em seu volume generoso fazia os cabelos escorregarem, formando uma cortina que sugestivamente protegia as cavidades auditivas. O som da queda era paradoxal – tão perto e tão longe. Remetia à precipitação intensa nas matas, que parece apostar uma corrida a fim de tocar o asfalto e mudar o ritmo apressado dos titãs.

Ouvi-lo era escutar o ritmo da liberdade em clausura de outrora. Era viajar em líquidos que lhe fertilizavam o sentir sinestésico. Mas este já não lhe era possível em verdade. Foi-se em fragmentos a cada segundo da perda como as centenas de gotículas que desciam velozes pelo vidro temperado. Por vezes, para acelerar-lhes a queda, passava as mãos pelo vidro. Era uma maneira de tentar enganar ou retardar a memória, que recuperava lágrimas a disputar o fluxo das gotículas. Ilusório domínio.
A memória talvez fosse o altar das bênçãos e sacrifícios; o tribunal íntimo e intransponível; o arquivo pessoal mais cruel e confortável. Talvez também fosse a memória a gruta infinita e subjacente a ser iluminada na busca ou na fuga em apneia. Na ocasião, o ar absorvido era limitado para alcançar o cerne nupcial.

Recuperada, em terra, o oxigênio era exuberante, porém excessivo para a respiração pacífica. Os tambores, imponentes e acelerados, bombeavam a vida em curso, e, assim, anunciavam a ausência, a liquidez da chama que se esvaía pelo ralo. Era agora a lama apenas, que dificultava o acesso à profundeza e repreendia o ato subversivo.
Em ritmo sufocante, o cheiro genuíno e devastador a abraçava. Era a mata, que se fazia presente na retomada onisciente da escalada. Era a imponência de uma fuga circunstancial e audaciosa. Era a cicatriz dos últimos toques. Era a certeza do efêmero desobediente, que parecia rochoso, desafiando qualquer ação erosiva do tempo. Era a despedida necessária. Tinha que ser assim. A altitude proclamava o infinito inexorável. Era o atroz ponto final estendendo-se para cima, na razão da exclamação.

A água que caía lavava a carne. Levava o sufocado pranto da alma. Em vãos de si mesma clamava. Em vão. E a cortina que se fazia só reiterava a urgência do censurado espetáculo interior. O fim reticente fortalecia-se. Melancolicamente inexato na certeza. Cada barulho do atrito com folhas secas – numa espécie de marcha inócua de fundo fúnebre – ora enterrava os minutos, ora os ressuscitava. Pisá-las fazia ascender os ruídos que promoviam o surto das imagens sonoras voluntariosas e suscetíveis ao acaso previsível.

As águas lhe eram invasivas nos olhos. Cegavam-nos em parte. Uma relativa cegueira providencial a esta altura. A imagem turva distorcia os desenhos sutis dos azulejos. Pareciam movimentar-se aleatoriamente. Os cílios longos uniam-se numa linda simetria. Mais uma cortina. Agora para proteger a íris, dando vez a um desvendar descompromissado com o real. O circuito de dentro para fora. Ela via o que desejava. Em espiral, percorria labirintos. Enxergava o avesso dos ponteiros. Do alto do pico, era capaz até de alterar a geografia sem revelar a si. O silêncio era, neste momento, consequência natural da aparente inércia das coisas e das pessoas a longa distância. Isso preservava aquele instante, paralisava o relógio, ativava uma singela sintonia. Simplesmente.
Já com a pele murcha, voltou ao seu tempo real. As pontas dos dedos, que revelavam certa palidez, pareciam menos sensíveis ao meio externo. Faltava o tato para sentir uma superfície com precisão. Lentamente, elevou o braço direito perpendicularmente à torneira esquerda. Encerrou, então, o fluxo das águas. Curvou-se, apoiando-se, com os antebraços, na parede das torneiras. Ainda com os olhos fechados, ouvia o resto de água corrente descer pelo ralo. Abriu os olhos, retomou a postura ereta, passou as duas mãos pelos cabelos volumosos, mesmo molhados. Estavam fechadas as cortinas do espetáculo.

Enrolada na toalha, sentiu-se abraçada. A maciez do algodão era confortante. Caminhou em direção à varanda do quarto. Algumas gotas de água escorreram do cabelo, molhando a madeira escura do chão. As pegadas denunciavam os passos curtos. Da porta, avistou a rede em cor crua, onde elegantemente parecia descansar uma borboleta de tons alaranjados, num dégradé perfeito que remetia ao crepúsculo. Com sutileza, sentou-se no chão, regulando os olhos á altura da franja da rede. A toalha desprendeu-se, revelando o corpo nu. Sem maiores preocupações, ela cruzou as pernas e repousou o queixo nos joelhos. Nos cantos do teto rebaixado da varanda, resistiam poucas teias de aranha em que se prendiam alguns insetos minúsculos. Tratava-se de ex-vidas cumprindo a cadeia alimentar.

Os fios das teias, as fibras longas da toalha, os traçados sinuosos das asas da borboleta, os losangos da franja da rede, os fios de cabelo – tudo tecia uma trama. Eram três metros quadrados de mera contemplação. Era o re-fluxo de imaginação. Eram as águas em enxurradas de redenção. Desaguando…

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 10 de março de 2010.)

Comentários (1) | |

Um comentário to “Desaguando”

  1. juliana peron Disse:

    Juliana texto lindo, muito lindo.

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