Em (cor)das


Em 1 de maio de 2010 por linhaseversos

Imersa em reflexões preto-e-branco, procura a xícara de café vermelha. Na penumbra, que lhe é por vezes necessária, encontra o pires verde. Passa a ponta do dedo indicador e sente a pequena parte áspera, lascada, sem aquela cor. Imagina-o humanizado, amadurecido e em vias de perverso esquecimento – não de si mesmo, mas pelos outros. Talvez ele pudesse sentir suas partes ásperas e descoloridas, enquanto os segundos derretem a cada golpe do ponteiro. Como se os lascados fossem cicatrizes na alma- expostas aos seus olhos míopes para coisas mundanas e mesquinhas – ela pode enxergá-los antes mesmo de unhas com esmalte escuro, depois de seus dias de glória. Em movimento circular, sente os 360 graus serem percorridos como um ciclo natural.

Divinamente humanos: o ciclo e o pires. Amarrados em cordas. Acordados em amarras.

Debruçada ao peitoril da janela colonial da cozinha, pensa que os lascados da alma podem ser leves e ter o frescor das pétalas umidificadas pelas gotas de orvalho. Seus olhos fatigados percorrem agora outro caminho: o das gotas de chuva que obedecem às leis da física traçando um percurso ora reto, ora sinuoso. Como as coisas são demasiadamente vivas, se pararmos para contemplá-las… Às seis horas em ponto, o feixe de luz que vem do poste da esquina atravessa o vidro transparente e toca o pires verde. Ela lembra que estava à procura da xícara vermelha. Caminha em direção à mesa e pega um dos bancos de madeira de demolição para alcançar a última prateleira do armário. Talvez pudesse tê-la guardado junto com o consumê de porcelana italiana, que recebera de herança da família materna. Abre o armário. Ainda se assusta com o barulho da dobradiça. A poeira discreta e estática parece incomodá-la, mas não o bastante para deixar o café em segundo plano. O líquido quente, em seu doce amargo, era tão necessário quanto a penumbra que aguardava o feixe de luz.

Finalmente toma em suas mãos a xícara vermelha. Nunca tivera paciência para coar café ou até mesmo cafeteiras elétricas. Tinha, pois, predileção pelos solúveis, práticos como fora ela sua vida inteira. Havia algumas colheres de café disponíveis, contudo acabava dissolvendo o açúcar com uma única: a de prata. Com esta fora homenageada em um dos memoráveis cafés e saraus que costumava promover para companheiros das letras. Enquanto mexe a colher no sentido horário, retoma o ponto do ciclo natural. Primeiro gole. Fecha os olhos e permite que a sensação de prazer percorra cada ponto sensível do seu inconsciente. Suspira. A fumaça parece surpreendentemente cromática. E se dissipa aos olhos não mais apressados como em outros tempos. O ar em velocidade mínima possibilita uma dispersão sinuosa e delicada. O coque mal feito se desfaz, os cabelos lisos, com a raiz branca, caem sobre os ombros, redescobrindo um movimento sensual, porém despretensioso.
Em idades quaisquer não tivera coragem de deixar a nuca totalmente exposta. As longas madeixas eram-lhe a moldura da face, sua mobilidade involuntária, os fios que se renovavam para acordar histórias, as ramificações de pensamentos em luz.

Levanta-se para lavar a xícara vermelha. Enquanto a água escorre pelo ralo da pia, busca seu reflexo no vidro da janela. As gotas de chuva parecem repousar sobre sua pele morena como o orvalho na alma em pétalas. A chuva cessara. Os espelhos d’água na rua e na pia lhe são convidativos. “Eu não tinha este rosto de hoje… Em que espelho ficou perdida a minha face?” De(cor)rara silhueta, traços finos, cicatrizes físicas. O espelho da cristaleira é estrategicamente reservado. Reflete os olhos do passado longínquo. Duplica as peças de cristal. Duplica os anos. Duplica lascados das almas.

Descalça – como sempre gostava de ficar em espaços íntimos -, caminha em direção ao corredor que a conduzia até seu quarto. Olha para um dos quadros dependurados. O mar estava tão sereno como aquele fim de tarde; a canoa, tão segura e invulnerável, que parecia estar presa por uma corda invisível a olhares viciados. Com ela faz-se o traçado perfeito, tal qual o traçado que articula o consciente e o inconsciente; o pensamento e o sentimento; o corpo e a alma. Divinamente humanos. Amarrados em cordas. Acordados em amarras.

Despertadas outras reminiscências, inicia-se um outro querer. De volta à sala, senta-se na bergère. Passa suavemente os dedos dos pés no tapete. Não sente areia nem fragmentos de conchas. Sente o algodão quase puro, que representa o conforto para o corpo, sempre disposto outrora para o trabalho. Ouve a coruja: companheira das noites, companheira de uma vida. A vida de saberes, sabores e dissabores. Olha a capela que fica de frente para a árvore mais imponente do quarteirão. As crianças do local chamavam-na de “a árvore dos segredos”. Com olhos curiosos e em tom temeroso, diziam que as pessoas, enquanto repousavam sob sua generosa sombra, contavam-lhe segredos. Quiçá desabafos… A tal árvore estava fixada àquele solo urbanizado, de modo que suas raízes lhe pareciam cordas, mas agora visíveis a todos os olhos. Porque assim elas impunham respeito ao cimento.

Um fio de cabelo desliza pelo rosto e provoca uma cócega. Um sorriso. Decidida, volta à cozinha, acende a luz, reordena seu conjunto de xícaras de café coloridas na bancada da pia. Sempre com os lascados à mostra. No centro põe a vermelha, sua eterna preferida. Ao lado direito, a verde com seu pires tão humanizado. Sorri mais uma vez. Vai para o quarto. Deixa uma lágrima de sono escorrer no travesseiro. Faz-se o desenho do círculo no tecido de algodão. A silhueta do seu corpo magro e esguio confunde-se com o desenho feito pelo lençol de cobrir. Como cordas trançadas repousam o ser e a coisa. Amarrados em cordas, repousam corpo e alma para acordar sem amarras.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 26 de fevereiro de 2010)

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