Em tempo(s) de São João.


Em 21 de junho de 2010 por linhaseversos

Em tempos de São João, meus sentidos revelam-se curiosamente aguçados. Existe um movimento colorido, disparado a vencer os tons sóbrios que dominam vestuários e semblantes. Sinto um frio gostoso de sentir.

Um frio ora disfarçado, do tipo elegante, que torna meus passos mais firmes e imponentes, sustentando a face desbotada e o corpo desde sempre vulnerável a temperaturas baixas. Um frio-sobretudo.

Um frio ora confortante, amigo, compreensivo às minhas anacronias, revestido de cachecóis, que amarram os anos em revisitação, através da privilegiada memória. Um frio- chapéu-de-palha-com-trancinhas. Um frio-dente-de-leite. Um frio-dança-de-peneira. Um frio-dança-de-coco. Um frio que fica no termômetro das simples emoções.

Um frio ora comunicativo, que sugere a troca de calor, recupera toques e sabores, projeta a imagem das fogueiras de outros tempos. As fogueiras que se faziam sóis em meio à multidão. As fogueiras onde se assavam as batatas-doces a serem regadas com o saboroso melado – que deslizava fazendo cócegas e aquecendo tudo quanto parecia resfriado lá dentro. As fogueiras perto das quais se agachava a fim de admirar as agressivas labaredas que estalavam em ritmo intenso de chicote-dançante. A fogueira-coração, que centralizava a energia, aproximava a multidão em quadras e quadrilhas.

Um frio ora introspectivo, que busca a comunicação com as estrelas aparentemente gélidas no negrume de silêncio festivo. Um frio que me faz admirar o céu com o mesmo olhar contemplativo e infante de outrora. Um frio-balão, que sobe vivo para morrer estrela-cadente.

Um frio ora atrevido, que chama o outro para perto sem verbalizações apelativas. Um frio-afã, deliciosamente sugestivo para a minha pele. Um frio-refrão, com ritmo marcado e palavras repetidas que ecoam na minha alma cálida. Um frio-quentão.

Um frio ora revelador, que me faz eloquente, expansiva em gargalhadas regadas a um bom vinho ou inundadas de batidas de amendoim. Um frio-baião, que me envolve num suador de bate-cochas. (E todo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco). Um frio-Psiu. Um frio-Sabiá. Um frio-Feira-de-Mangaio. Um frio-Bate-coração.

Um frio ora evasivo, que dá vez a um calor fora de época. Um frio-tropical. Um frio que se despede para me deixar saudades das noites de Pedro, Antônio e João. Um frio-lampião.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 21 de junho de 2010)

Comentários (2) | |

2 comentários to “Em tempo(s) de São João.”

  1. Claudyane Alves da Silva Disse:

    Gostei professora !
    mil beijos!

  2. Bete Furtado Disse:

    Ju, continuo frequentando sua página e me aquecendo com a “batida” das suas palavras.
    Beijo.

Deixe seu comentário