Jujubas, delicados, suspiros coloridos, etc.


Em 13 de outubro de 2012 por linhaseversos

Sábado pós dia das crianças. Como de praxe, acordo por volta das nove horas, saboreio meu café sem grandes variações – suco de laranja, mamão, pão na chapa – e, finalmente, dedico cerca de meia hora à leitura do jornal. Sou, então, surpreendida por um texto de Daniel Azulay: artista plástico que comandou, nos idos dos anos 80, um programa infantil cheio de estímulos e cores na antiga TVE. Tenho afetuosas recordações da atração, em especial da personagem Dona Chicória. Daí emergiu uma súbita vontade de escrever sobre a infância.

Ser criança não é fácil mesmo: tudo é novidade e precisa ser bem explorado. O advérbio “bem”, nesse caso, desfila poderoso pela semântica do texto, isto é, do modo à intensidade com que se experimenta a realidade. E é exatamente aí que os pais cumprem papel imprescindível. São eles que executam a seleção (a priori, rigorosa) dos recursos estimulantes, desde o primeiro brinquedo musical de berço às historinhas narradas antes de dormir. Do joguinho educativo à peça teatral. Do desenho à animação na telona. Da escola (pequena e aconchegante ou superlativa?) à atividade física (Balé, natação ou as duas coisas?). São cores, sons e movimentos. Formas geométricas, encaixes, repetições, memorizações. Pessoas, bichos, plantas e coisas convivendo em sociedade, com regras e condutas.

É preciso ter cuidado com os apelos do mercado. Onde comemorar os aniversários de um, dois, três anos? Casas de festas? Há inúmeras, uma a cada dois quarteirões. Todas bem equipadas para receber a geração que nasce em redes sociais. Brinquedos diversificados: coletivos e individuais, eletrônicos e manuais, pequenos, médios e gigantes, vídeo games à disposição de crianças e adultos. Afinal, vale a máxima: homem só muda de brinquedinho. Moças e rapazes uniformizados para animar a festa, leia-se aplacar a agitação de meninos e meninas de feudos pós-modernos, condomínios mega infraestruturados.

Que saudades das festas que minha avó ajudava a produzir com tanto carinho! Sem grandes artificialidades… Enfeites confeccionados manualmente, com charmosas imperfeições que davam até certa originalidade. Saudades das festas no quintal de casa, até mesmo no play do prédio ou na escola. Festas regadas a docinhos caseiros: brigadeiros, beijinhos, cajuzinhos, moranguinhos (minha avó os fazia como ninguém), até de abóbora, abacaxi e batata-doce. Imperdíveis. Deliciosos. As brincadeiras eram simples assim: piques de todo tipo, amarelinha, os improvisados com as bolas que enfeitavam a festa. E, vez ou outra, contratava-se um mágico. Mas, isso é mesmo coisa do passado, dos tempos de câmeras fotográficas analógicas. As avós de hoje em dia encomendam, recomendam, compram tudo pronto, solicitam serviços de primeira e curtem as festinhas familiares em melhor estilo, exibindo seus netos sadios.

E os apelos culinários? As crianças de hoje apreciam cupcakes, com suas cores e sabores tão atrativos. Aprendem até a decorá-los com os amigos. Curtem de montão as balas de gelatina, azedinhas ou não, em formatos diversos. Selecionam cuidadosamente os feitios que, além de agradar o gosto dos convidados, auxiliam na decoração das festas. Eis a espantosa construção de um mercado cada vez mais especializado em atender aos médios e grandes luxos do público infantil. Uma concorrência desleal com o velho bolinho de chuva, os suspiros coloridos, os delicados, as jujubas, enfim, guloseimas acessíveis, não expostas em quiosques de shopping. Que Saudades da clássica bala toffee, vendida em saquinhos, embalagem azul-marinho, de bolinhas brancas. Isso sim era um luxo para uma menina com menos de dez anos.

Mas e a alimentação regrada? Os pais mais preocupados correm para pediatras e até nutricionistas. É claro que a criança tende a preferir os coloridos e doces das confeitarias, as frituras de “fast-foods”, todas as coisas gostosas e não saudáveis. Mais uma concorrência desleal. Cortar tudo? Nem pensar! Em tempos de conscientização da importância de dietas balanceadas, convém adotar os pratos coloridos, com verduras, legumes e frutas ou gelatinas de sobremesa. Mas, venhamos e convenhamos, colocar, na lancheira da escola, uma cenoura baby é demais. Isso o “para sempre bebê” come em casa, nas refeições mais completas, não?! Os pãezinhos, achocolatados, suquinhos, iogurtes e saladinhas de frutas caem super bem e não fazem feio com a garotada. Uma balinha de vez em quando, tudo bem. Não todos os dias, aos montes. Não há dentes e organismos que resistam.

Que saudades da pipoca da porta do colégio. Meu pai não admitia aquela fritura conhecida como “pele”: uma variação popularíssima do salgadinho de bacon. Nunca me deixou chegar perto. Hambúrguer da esquina, nem em devaneios. Ele era preocupadíssimo em monitorar a alimentação, limitar as guloseimas. Refrigerantes só nos finais de semana e nos dias de Educação Física. Obrigada, pai. Esse “trabalhinho chato” valeu a pena. Não adianta mesmo adotar práticas saudáveis só quando nosso organismo está em declínio, quando estamos sentindo na pele o desgaste do tempo. Não é fácil persuadir a criança com alternativas saudáveis. O trabalho disciplinar é dos pais, que nem podem mais contar com o Popeye na hora do espinafre. Para a criança, fica o exercício diário de assimilar as novidades sinestésicas – paladares, essências, texturas, sons, efeitos visuais – e os aparatos tecnológicos.

Atualmente, crianças portam celulares de última geração e manuseiam tablets com uma desenvoltura impressionante, de invejar muitos avós atentos às novidades do mundo digital. Mais uma concorrência desleal. E, agora, para a escola. O que um professor pode fazer para promover tamanho interesse a ponto de desbancar as mais recentes postagens dos “amigos” nas redes sociais? O que a velha massinha de modelar pode oferecer para prender a atenção, sobretudo das meninas que, antes mesmo de trocar a primeira dentição, frequentam salões de beleza, decoram as unhas, fazem mechas coloridas nos cabelos, usam saltinhos e veneram artistas pops em suas performances sensuais? A capa do livro nem desperta mais tanta curiosidade… Será? O mercado editorial corre freneticamente para acompanhar as tendências: cria histórias com imagens tridimensionais, conjuga o lúdico e a ficção em formato de castelos, embarcações, com personagens que transitam pelo cenário, de modo que o leitor vira coautor das histórias apresentadas. Mais do que uma dinâmica necessária: uma questão de sobrevivência.

Nesse ritmo buliçoso, nossas crianças acabam experimentando precocemente o mundo adulto em detrimento das vivências genuínas da infância. Deixemos que sejam crianças, comportando-se, vestindo-se como tais. Não façamos delas consumistas mirins, pois é aí que tange outra questão: o desperdício, comprometedor dos recursos naturais. Faz-se, então, necessário o zelo pelo planeta, ou seja, o ecologicamente correto. “Não desperdice, minha querida. Você não aguentará comer tudo isso… Não usará tudo isso… Não dará conta de tantos brinquedos. Vamos doar alguns? Não jogue lixo no chão. Coloque o papelzinho de bala no bolso, caso não encontre lixeira por perto. Chegando à nossa casa, jogamos fora. Não! Não! Aperte o botão de um elevador, meu filho! Você não precisa de dois. Precisa? Feche a torneira enquanto escova os dentes. Vamos ao Jardim Botânico? Que tal um piquenique? Jardim zoológico hoje não, né? Está muito quente! Praia? Castelinho de areia? Pode ser, mas antes do sol a pino…”

E assim edificamos uma geração, que saberá valorizar o não e os legítimos argumentos, que não construirá castelinhos vulneráveis a marolinhas. Não é fácil para os pais também. Mas, vale o sentimento. Vale a intuição. Vale a informação. Tudo é investimento. Dedicação que não se resvale pelo rio de inutilidades e superficialidades, não se afoga em poço de tendências obscuras nem se esgota na idade mais madura.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 13 de outubro de 2012)

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