Linguajar, língu(a)gir: Língua Já


Em 9 de junho de 2011 por linhaseversos

Sou frequentemente flagrada em meus ápices de loucura (meus alunos que o digam), discorrendo a respeito de fatos ou assuntos que ora me atormentam, ora me sensibilizam o coração através dos olhos – comunicação tão verdadeira e ao mesmo tempo insensata, sem filtros.

Meus pensares eternamente sofríveis me colocam diante da página em branco e gritam: “Escreve, senão tua alma estará condenada às trevas, teu coração fechar-se-á em si mesmo e criará espinhos como ouriço”. A culminância, então, dá-se aqui, em minhas letras digitadas, que exorcizam meus pequenos demônios cotidianos, expurgam as impurezas, reciclam ideias, libertam opiniões, renovam seres e salvam o eu, o tu e o nós.

Adiei minha produção escrita sobre a polêmica do livro didático de Português – aprovado pelo MEC – que privilegia exemplos da variedade não padrão da língua. Contudo, a matéria da revista Piauí deste mês com Evanildo Bechara, o papa do nosso idioma no Brasil, reacendeu a chama. Ou melhor, queimou minha “mufa”. O gramático defende a seguinte tese: o falante deve se tornar um poliglota na sua própria língua. Isso já me era sabido desde as primeiras aulas na Faculdade de Letras. Sem dúvida, o acadêmico assume uma postura prudente ao considerar a diversidade e a adversidade aceitáveis; descartando, por conseguinte, o preconceito linguístico.

De fato, em tempos de análise do discurso – segundo a qual meio século de carreira pesa muito mais que cinquenta anos -, o contexto discursivo é fundamental, uma vez que são considerados, em atividade comunicativa, todos os elementos “intra-extra-inter-hiper-textuais”: interlocutores (quem e com quem se fala), finalidade (a fim de quê), intencionalidade (intenções implícitas e explícitas), tempo (quando), espaço (onde), gênero e suporte textuais.

Em outras palavras, isso significa dizer que “ninguém vai à praia de terno”. O indivíduo que se predispõe a ir ao Maracanã para assistir a um jogo de futebol com os amigos não vai pedir “por obséquio” tampouco declarar “Tenho nutrido nobres sentimentos pelo meu clube” ou “Admito, meu caro amigo, ter predileção por aquele jogador, deveras arrojado em seus passes e lances que surpreendem o adversário”. Muito antes de um time vencer, o coletivo vence o indivíduo quando se trata do grupo social; logo, por maior que seja o repertório linguístico, o torcedor na arquibancada se mistura e toma para si a essência popular. Daí, o substantivo coletivo “torcida”. “É nóis!” Esbarramos, então, na democrata e bem intencionada cadeira acadêmica: a sociolinguística.

Entretanto, a discussão aqui não tem como cerne a relevância das variedades linguísticas. Estas são inquestionáveis e invencíveis, haja vista a extensão territorial do nosso país, as ricas diferenças regionais, sobretudo as discrepantes realidades socioeconômicas.O “mineirim”, por exemplo, é uma graça na sua fala espontaneamente reduzida, sem minimalismos medíocres; o paulistano assobia enquanto o carioca chia e o baiano canta. O importante é que todo mundo se comunica. “A língua é viva, porque está na boca do povo”, já dizia Luis Fernando Veríssimo.

A questão em pauta é que não se deve, em hipótese alguma, desconsiderar a norma culta na sala de aula ou colocá-la em segundo plano, já que se trata da variedade linguística a ser cobrada em concursos, seleções e contextos discursivos que exigem certo protocolo: reuniões, contratos, entrevistas, entre outros. A bandeira levantada por mim é a importância da língua dita culta: em que situações ela se faz dominante e por quê. Ser muito flexível, neste sentido, pode significar tirar do cidadão o direito de ter acesso ao passaporte para o mundo efetivamente letrado. Designar-lhe o serviço braçal, em que a ausência da marca do plural nas flexões verbais ou nominais não altera o produto. Incutir-lhe a mentalidade que absorve os auxílios, cotas e bolsas como um “cala-boca” ou um bônus pela sua dócil resignação.

Significa, pois, condená-lo à margem da sociedade. Fazê-lo eternamente indigno do hall acadêmico. Afastá-lo em definitivo de Padre Antônio Vieira, Machado de Assis, Drummond e Ferreira Gullar, tão afiados e sensíveis às questões sociais. Não lhe apresentar a história do menino Machado – que era pobre, mulato e epilético, em tempos sem cotas para afrodescendentes.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 09 de junho de 2011)

Comentários (4) | |

4 comentários to “Linguajar, língu(a)gir: Língua Já”

  1. rafaela Disse:

    q eu sempre gostei de Gramática não é novidade; tanto q caí na asneira [haha brincadeira] de fazer (L)etras…

    quando me apresentaram à Linguística, porém, descobri o coração bater mais forte! =)

    Marcos Bagno, por ex., me deixou intrigada, mas algo q afirma e de q nunca me esqueci é o de q a língua não é meramente expressão comunicativa, mas um instrumento de poder, e até de opressão às vezes.

    pensando nisso e no pseudo-interesse do governo em levar o país a uma melhor posição no ‘ranking’ de Educação, dá para entender por que optar pelo q parece mais fácil aos discentes – tendo em vista a distância q os separa da norma culta e, portanto, da capacidade de fazer da língua seu instrumento de defesa como sujeito [segundo à AD] e como ser pensante.

    seu ponto de vista é muito sensato e faz-se incorrigível em qualquer passagem.
    Juliana Izabeli: eu apoio! haha

    beijo!
    (L)

  2. Rosane Miccolis Disse:

    Que texto, heim???????Maravilhoso! Tem minha total “concordância em gênero, número e grau” eheheheheheh Parabéns!

    O final foi sensacional:”fazê-lo eternamente indigno do hall acadêmico!Afastá-lo em definitivo do Padre Antônio Vieira, Machado de Assis, Drummond e Ferreira Gullar, tão afiados e sensíveis a questões sociais.Não lhe apresentar a história do menino Machado – que era pobre, mulato e epilético, em tempos sem cotas para afrodescendentes”.

    Amei!!!!!!

    Vou repassar.

    Bjs
    RoMiccolis

  3. Milena 901 Disse:

    Por mais que eu saiba que seus textos são os melhores do planeta, eu me surpreendo. “Caraca”, Juliana! Eu amei essa produção, vai pro livro da capa verde – como no meu sonho. rsrs Beijos, professora!

  4. maria georgina Disse:

    Lingu-agir,bem próprio desse orgão indisciplinado e de tamanha importãncia.Muito bem escrito.Parabéns!

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