Memórias de um apaga(dor) – a crônica


Em 17 de outubro de 2010 por linhaseversos

Esta semana reservou-me surpresas. Nem sei se essa é a palavra exata para designar o misto de sentimentos que me envolveram em ações no magistério. Na verdade, há momentos (pontuais) em que o solo me parece tão ressequido, árido, infértil, que procuro abstrair cumprindo minimamente meu ofício. Tenho contas a pagar e um remedinho controlador de surtos: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Faço escolhas e por elas me responsabilizo.

Contudo, já tenho em mente algo confortante para a minha posição: a sala de aula é similar a um campo de futebol. Sumariamente, isso significa que um jogo nunca é igual ao outro, há sempre o elemento surpresa, e eu nem sempre tenho uma excelente atuação, ou seja, não raro um golzinho é suado. Ademais, a cobrança é sempre para o professor: a aula tem que ser atraente; espera-se que a metodologia seja dinâmica, com base na clareza das informações e deve-se atingir todo o grupo discente. E tudo isso independe do total desinteresse do Fulaninho, afinal a família dele pode sofrer uma desestrutura ou viver um eventual caos financeiro, ele pode ter um déficit de atenção, com laudo do psico-não-sei-o-que-das-contas etc.

Ah! Já entendi que culpa é minha e ponto.

São muitas as adversidades oriundas de pontos diversos: aluno, família do aluno, escola, sistema, governo, políticas educacionais, equipe, ego e egos. Enfim, não mato leões; convivo com todos eles diariamente. A questão é esta: na educação (brasileira), não se matam leões; alimentam-se leões, domam-se leões, domesticam-se leões, escondem-se leões dentro de si ou em gavetas, com amontoados de papeis amarelados e inúteis. Porque o magistério, minha gente, é um sacerdócio. Não se espera recompensa material, todas as dificuldades lhe são inerentes, a doação norteia todo o processo, a linha limítrofe entre medo e culpa é tênue. Arcaísmo? Não sei exatamente. “Só sei que nada sei.”

E aí, cabe a cada um criar a sua grande estratégia de sobrevivência: ser rude, não esmorecer, manter uma distância necessária, ter fé, acreditar, viver à procura de inovações, motivações e até pseudossoluções. Mas e a minha estratégia? Sou perfeccionista, mesmo sabendo que isso não existe para nós, humanos. Então, estou fritinha da silva nessa profissão. Porque tentar alcançar o melhor – trabalhando em três escolas, tendo em média seiscentos alunos, com uma carga horária de 60 tempos semanais – é surreal.

Logo, vivo me reinventando: a sala de aula é meu palco. Sou dona dele sim, porque só eu sei a dor e a delícia de ser quem (ou o que) sou. Para não enlouquecer, crio bordões, abuso dos foras sem abandonar as brincadeiras (sempre bem vindas), troco ideias, falo de sucessos e fracassos, aconselho e acalanto. Coloco afeto e alma nas pequenas coisas. Sou honesta com meus alunos, assumo minhas limitações. “Me mostro.” (Os teóricos decerto enlouqueceriam com meus métodos educativos.) E ganho esse jogo. Não por um dia, por um campeonato, mas por uma vida profissional, que se costura pelas memórias de um apaga-(dor).

Na escola municipal, um aluno levou uma caixa de bombom na mochila e me deu sem qualquer pretensão, sem pensar em dividir com outros professores. Por quê? Não é porque precisa de pontos (ele não está nem aí para esse tipo de mediocridade) ou porque ministro a melhor aula do mundo. Longe disso. Perfeição é mesmo coisa divina, não humana. Talvez porque, na minha loucura, trato-o como ser humano. E brigo. Brigo por mais humanidade. Brigo por mais verdade nas relações humanas. Por estar farta do sentimentalismo burguês, de discursos demagogos, de jogos de interesse. Reclamo e desanimo às vezes (ou quase sempre). Mas não me perco de mim. São muitos porquês em perguntas e repostas.

A turma temida da escola está mais próxima de mim hoje. Foi um trabalho árduo de convivência. Durante dois meses, o que eu menos fiz foi ministrar aulas de Português. Comecei com uma atividade voltada para entrevistas, enquetes e cartazes sobre a Copa do Mundo, depois uma outra sobre relações de amor e amizade, que culminaria no correio do amor, justo durante a semana do dia dos namorados. E assim as aulas transcorreram. A maioria desses alunos continua não querendo nada com os estudos, mas passou a me “respeitar”, a me dar dez minutos de atenção quando leio um texto ou corrijo um exercício idiota da apostila que não faz diferença alguma, já que a vida dessa maioria é música e miséria. Até a atividade de cidadania e identidade, proposta para a Semana da Pátria, foi devidamente concluída e exposta no mural do refeitório. Alívio. “Gosto muito de vos ver, leõezinhos.”

E no colégio particular? Quantos abraços, quanto carinho, quantos problemas… São crianças e jovens carentes. Carentes de atenção dos pais, que precisam de muito mais tempo para fazer dinheiro. Há de se pagar tanta coisa: a escola, o curso, o balé, o sapateado, o futsal, a natação, o psicólogo, as aulas de apoio, a internet banda larga, o ipod do momento, o videogame do momento, o computador do momento, o tênis do momento, o celular do momento etc. Na minha adolescência, poucos tinham telefone; não havia internet, celular, MPs da vida, tevê a cabo. E eu só pensava em estudar no meu quarto, ouvindo Legião Urbana no meu walkman made in Paraguai. A tecnologia tem seu preço. E nós nos vendemos, ou melhor, vendemos mão de obra e momentos para ter acesso a ela.

Em meio a essa avaliação, veio a mim um aluno do particular cujo pai falecera no último sábado, vítima de infarto fulminante. Curiosamente, há umas três semanas, ele se revelou muito chateado com palavras que lhe dirigi num momento de fúria.  Ele fizera uma comparação da nota alcançada em outra disciplina, alegando ter dificuldades com minhas provas. E eu, sem pensar duas vezes, retruquei apontando como uma das causas do baixo rendimento a imaturidade dele para lidar com desafios e cobranças. “Provas fáceis lhe caem muito bem, porque pensar dá trabalho.” A revolta dele foi tamanha que meu nome acabou na boca de Matilde, quero dizer, da psicóloga. Pronto. Estava feito. Ninguém está preparado para ouvir verdades. Mas, ele mesmo acabou admitindo o descompromisso e agora, fragilizado com a perda, tem procurado palavras de conforto. Um carinho que seja. “Acho que agora eu crio juízo, professora.”

A vida é cruel, e ninguém espera um golpe desses para melhorar aqui ou ali. O material humano é complexo. Não tem como devolver, levar ao conserto, alegar defeito de fábrica ou da série. Muito menos quando envolve ensino-aprendizagem. Há tantas referências e interferências: a família, o meio, a escola, as amizades, a mídia.

No jantar do colégio estadual, a diretora passou um vídeo, em que foram utilizadas cenas do filme “Vida de inseto” para falar dos desafios que nós, sobretudo os profissionais da educação, enfrentamos hoje. Interessante até, politicamente correto e com boas pitadas da sensação do momento: a autoajuda. O fato é que, repetitivo, ultrapassado, inovador ou lúdico, o que cada mestre acaba fazendo é um trabalho de formiguinha.

Fui incoerente em alguns momentos? Paradoxal? Desculpe, caro leitor. Sou humana, formada em Letras pela UFRJ, mais uma formiguinha num país de professores com títulos e baixos salários, reféns de uma educação pública falida e de muita politicalha. Ou seria politicagem? Eu só pretendi uma aglutinação: política com canalha dá politicalha…

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 15 de outubro de 2010)

Comentários (4) | |

4 comentários to “Memórias de um apaga(dor) – a crônica”

  1. Faby Cossenza Disse:

    PerfeitoOoOoO! Adoro suas CRÔNICAS!

  2. rafaela Disse:

    Ju…
    entendo a dor; é minha tb:
    tenho o olhar de quem está ‘de fora’, mas com certo contato.

    nem sei o que te dizer…
    não desejo força, porque tens [do contrário, já não fazias mais parte disto]; nem desejo fé, porque isso é idiossincrático. te desejo, pois, uma baita ginga!
    e segue sambando: o carnaval é mesmo aqui! o/

    beijo

  3. Bete Furtado Disse:

    Ju, passei pra matar a saudade e me deleitar mais uma vez com sua crônica que retrata bem o que vai na alma de muitos de nós, seres pensantes e ” sofrentes” , se me perdoa o neologismo brincalhão ,já que a alegria e a brincadeira fazem parte da minha estratégia de sobrevivência.
    Beijo,beijo,beijo com cobertura de saudade.
    Bete.

  4. RICARDO BA$$MAN Disse:

    Não sei se vou conseguir resumir mas, acendo no ítem “trabalho de formigas”… porque, por que, ou porquê?
    Por que só trabalhamos, pagamos muitos e altíssimos impostos, elegemos péssimos políticos, ladrões, militares, bandidos, traficantes, etc e porque?
    O problema do “rico” é que, só porque ele tem dinheiro, o mesmo acha que pode comprar tudo e não é bem assim né!? E o pobre? Desgraçado, sempre está com fome, sem dinheiro, filho(a) passou mal, cansado(a) de tanto trabalhar, condução e etc…ele(a) põe tudo que tem para relatar como obstáculo pessoal ou social… misericódia!!!
    Bom neste momento meu corpo amolece, minha visão fica embassada e escurece, a cabeça começa agirar e dançar de um lado par ao outro com se fosse um relógio “Cuco””..mas..calma! Não estou passando mal, mas sim com muito sono..
    continue com suas crônicas, injetando conhecimentos, harmonia, leitura, versos e poemas nas células de cada ser humano, pois precisamos de pessoas e professores com bons pensamentos e bons projetos como os seus! Sussesso!
    Continuo outro dia meus comentários!

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