(Me)nina


Em 17 de julho de 2010 por linhaseversos

(In memoriam Rosa Bulhões, minha avó paterna.)

Aquela criança intacta está sentada ou correndo. Não importa. Seus cabelos fazem sempre um desenho diferente em cenas coloridas. E não adianta o pente que, por várias vezes, o pai tira do bolso militarmente. Seus cabelos são livres: têm um movimento fácil e bonito de se ver. Franja na altura dos olhos. Muitos saltos, poucos modos.

Em ar de maresia, sua pele transpira liberdade e uma rara existência pura. Olhos atentos em meio a tantos pensamentos. Silêncio e sons: um pouco de canoa, um pouco (ou muito) de garoa. Boneca de papel. Vontade de ferro. Dente duro para gelo. Dente mole para bananada. E que drama para comer peixe ou galinha ensopada!
tarituba
As vozes não têm a concorrência da cidade grande; alternam-se em contos, cantos, rezas e ladainhas. Tudo em volta é movimento também. Cumpre um rito de acordo com o pulso do vilarejo. Quase um suspiro daquelas ondas pacatas, como o caminhar das pessoas em tamancos e chapéus de palha.

Não há postes nem calçadas neste tempo. Nas ruas, as flores das cercas vivas insinuam-se, destemidas, aos passantes. Para iluminar, bastam os lampiões a querosene e o sol. Logo se chega a rancho, rede e anzol.

Na lateral da casa, o quintal de terra, com um muro todo enfeitado de preguaís: um capricho da avó. Uma arte laranja no muro cheio de limo. Pelos corredores, ouvem-se os passos bem marcados nas rudes tábuas corridas: o avô ou o pai? (Pessoas bem parecidas…)

A avó com uma das mãos na cintura, outra na peixeira. Lá se vão mais bananas da terra no fogão a lenha. Cuscuz de milharina e pilão. São muitas pitangas e amoras. Ao pé de Jabuticaba, um coração de rosa, a Rosa no coração.

Ela tem sempre um cheirinho bom: cheiro de avó. Talco em quantidade caprichada no colo, nos pés e até onde mais der.

Esta menina não existe mais. Nem a avó, nem a casa, nem os lampiões… Nada mais é como antes: a graça, os gostos, os sabores. Tudo jaz em memória apenas. O agora é outro tempo; a menina é mulher, com o seu rebento.

Mas como ela tem saudades da sopa de milho verde da avó. Saudades da prosa. Saudades da Rosa.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 16 de julho de 2010)

Comentários (6) | |

6 comentários to “(Me)nina”

  1. rafaela Disse:

    amada,
    que lindo; que linda…

    beijos e um abraço apertado

  2. Isabelle Disse:

    Nossa que lindo *-*
    Parabéns mais uma vez, amei!
    beeijos

  3. Julio Disse:

    Saudade de nossa vó, daquele tempo, daquela época, do cheiro…
    muito bom, parabéns!

  4. RICARDO BASSMAN Disse:

    Adorei teacher: me fez lembrar da minha avó e nos tempos de crianças, quando era criando na roça…muito lindo mesmo. Parabéns! Valeu e até breve!

  5. maria georgina Disse:

    Nossa! chorei,tempo bom.

  6. RICARDO BA$$MAN Disse:

    SHOWW…

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