Molduras e memórias


Em 14 de agosto de 2010 por linhaseversos

O ser humano é sensorial: sons, cheiros, sabores, toques e imagens constituem um arquivo íntimo, pessoal e intransferível. Através de uma trilha sonora, reportamo-nos a instantes que jamais caem no esquecimento. Revisitamos episódios das nossas vidas, derramamos lágrimas de saudades. Paisagens e cenários resguardam as brincadeiras da infância, encontros, viagens ou mesmo amigos de longa data, cujos trejeitos somos capazes de reconhecer anos depois. Basta uma essência frugal ou amadeirada ou floral invadir categoricamente as narinas, para que nossos olhos abram espaço para a visão da memória.

Durante uma curta exposição ao sol da manhã de inverno, senti um cheiro de manga madura. E olha que nem em época de manga estamos. Mas tudo bem. Na realidade, penso que o nosso cérebro é, em certa dose, comandado pelo inconsciente, elegante no agir. Até porque, com a barulhada das ruas e os poluentes lançados pelos automóveis ao queimar o combustível, tenho certeza de que o meu consciente retomaria, àquela altura do campeonato, um engarrafamento pavoroso da rodovia Rio Santos, às vésperas do carnaval. E não foi nada disso.

Penso que muitas coisas do passado longínquo – momentos, pessoas, capítulos trágicos ou cômicos – têm seu lugar. “Deletamos” uma coisa ou outra por conveniência, a tal da real necessidade que nos toma subitamente. Talvez nem as tenhamos em poder, porquanto não há para nós a “glória para sempre”. Nem eu almejaria tê-la. Ocultamos, porque somos naturalmente omissos no que diz respeito ao passado. Exaltamos o restritamente necessário ou louvável.

Contudo, colocamos em destaque – não em vitrine, mas em cofres indevassáveis – os minutos seguros de intensa felicidade. Aquela felicidade flagrada, que faz cócegas na garganta, que dá frio no estômago, que mais uma vez deixa nossos olhos imersos em lágrimas, que esquenta as mãos, que dá colo ao coração e repousa a preocupação. Aquela felicidade indivisível, porque tem um único destino e um objetivo: congelar o minuto. Lá, naquele instante, ocorre a degustação em sentidos.

Configura-se, então, o conjunto da obra, que pinta a tela primorosamente. E a tela, emoldurada, é delicadamente dependurada na parede mais nobre da memória. Não há furto para ela. Não há qualquer ameaça. Não há seguros que custam “os olhos da cara”. Não há também exposição. A galeria é reservada, mais uma vez pessoal, mais uma vez indevassável.

Valem, pois, a viagem interior, a introversão. E, sem mais, valem as palavras do poeta: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Deliciamo-nos com o que há de mais belo das nossas galerias. Não importa qual técnica utilizamos, qual tendência seguimos ao pintar cada minuto. Impressionistas ou expressionistas: quem sabe? Apenas nos colocamos à disposição das peças que nos são pregadas no “Grande Teatro do Mundo”, dos caminhos ou descaminhos pelos quais somos muito responsáveis em livre-arbítrio. Cumprimos, pois, o papel de visitantes de nós mesmos. A memória é silenciosa, e nela estão as molduras.

E a manga estava lá, em linda moldura de tom preto fosco sobre a madeira de outrora. Ao lado dela, eu aguardava só uma coisa: “_ Vô, o sacolé já está pronto?”

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 12 de agosto de 2010)

Comentários (4) | |

4 comentários to “Molduras e memórias”

  1. Tweets that mention Entre Linhas & Versos » Molduras e memórias -- Topsy.com Disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by Jorge Luís Marques, Juliana Izabeli . Juliana Izabeli said: Molduras e memórias: O ser humano é sensorial: sons, cheiros, sabores, toques e imagens… http://goo.gl/fb/NJvHT […]

  2. Julio Disse:

    Boaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!

  3. maria georgina Disse:

    Me mata Ju de saudades! Vc é demais.Minha bailarina,poetisa e flor do meu jardim.

  4. kátia Doanato Disse:

    Também sinto muita falta das nossas longas conversas, entrecortadas por imensos parênteses…fora as taças de vinho tinto!
    Bom saber de você através dos seus textos!
    Carinhos e saudades.

Deixe seu comentário