No balanço de “Avenida Brasil”


Em 20 de outubro de 2012 por linhaseversos

O “balanço” da trama de João Emanuel Carneiro segue aqui com a força da polissemia da palavra: balanço da música de abertura, que – vazia de conteúdo, mas em ritmo “irresistivelmente latino-africano” – embalou, agitou, sacudiu os lares e bares brasileiros em horário nobre; balanço de movimento oscilatório, diante das reviravoltas e de cada capítulo encerrado com clímax; por último, balanço de levantamento (também especulativo) de efeitos artísticos, linguísticos, estéticos, políticos, sociais, etc, etc, etc.

Comecemos, caro espectador (leitor), com Avenida Brasil em seu epíteto “a novela das onomatopeias”: o oi oi oi de abertura, o hi hi hi da sarcástica risada de Nilo (interpretado magistralmente por Jose de Abreu) e o som sibilar SSSSS da cobra Carmen Lúcia. O mesmo oi oi oi onomatopaico serviu à metonímia que rendeu pessoalidade ao título do folhetim. O que saía da “boca do povo tupiniquim” era: “Daqui a pouco começa oi oi oi”, “Vou ver a Carminha”, “Tenho que ir pra casa ver o Tufão”, etc.

“Avenida Brasil” foi de zero a dez na escala do “politicamente incorreto”, “socialmente questionável”, “relativamente aceitável”, “humanamente improvável”. A começar pelo paradoxal Lixão: um espaço escuso e acolhedor, escravizador e redentor, aglomerado e organizado, limpo e imundo, longe e perto de tudo, até da Vieira Souto. Com muito riso e pouco siso, o Brasil monogâmico digeriu, entre núcleos da Zona Sul e do subúrbio, a transmutação da traição de Cadinho em poligamia bem esquematizada e a ascensão do triângulo amoroso de Suelen à bigamia (feminina), bem a calhar para escamotear a homossexualidade de Roni. Aliás, a “ariranha” atravessou estações de calça legging estampada (a preço de banana em comércio popular) e barriguinha de fora, comprovando que periguete não sente mesmo frio. “Yes, nós temos bananas e ariranhas!” O senso de humor, é claro, faz valer a mistura conveniente de fauna e flora, em tempos de mulheres inspiradas no mercado hortifrutigranjeiro.

Circulando entre Suelens, Darksons, Tessálias, Olenkas (nomes que atrapalhariam até a alfabetização), conhecemos, ou melhor, reconhecemos o “Divino”, bairro quase personificado, devido à sua essência suburbana nos detalhes: a loja que expõe peças e chama o freguês como feira livre; o salão de cabeleireiro com mistura de cores e estilos para todos os gostos (e “desgostos”, haja vista o corte anos 70 da Ivana); as casas térreas azulejadas; a intimidade se estendendo do espaço privado para o público; o coloquialismo linguístico em elevadíssimo grau, como mais um forte sinal de estereotipação. Aliás, estereotipada também estava a zona sul (soberana e classuda), com suas mulheres – ora fúteis, ora intelectuais, ora privilegiadas de berço e bolso –, que desconhecem o vizinho, mas sabem ser passionais em qualquer endereço, se necessário.

Falando em paradoxo, não sei se o público atentou para o seguinte detalhe: Tufão passou a novela inteira de preto, enquanto Carminha, de branco. Como Yin-Yang (símbolo chinês de integração), os opostos se encaixaram por um acordo de conveniências: consciente para ela; inconsciente para ele. Ela, (yang), ativa; ele, (yin) passivo. Lúcida, ela enxergava e desconfiava; omisso, ele não enxergava (quiçá não quisesse) nem desconfiava.

Carmem Lúcia foi espetacular em sua visceralidade. Não foi à toa que recebeu este nome do seu criador João Emanuel: Lúcia vem de luz (lux, em latim); iluminada como no símbolo yin-yang, não por uma luz divina, mas simplesmente porque, inescrupulosa, era capaz de enxergar sob a pele de cordeiro. Similar à ópera Carmen – clássico de amor e ódio vividos na Sevilha do século XIX –, Carminha é a “cigana” pós-moderna, desprovida de qualquer moral, que seduziu Tufão e o afastou da noiva “cangaceira”. Com nome composto e expressivo, a antagonista não merecia um final tão medíocre, incoerente, ilegítimo. No posto de vilã, seguiria triunfal no gran finale, com seu mais novo milionário e seu mais novo amante manipulável. Às escondidas, em tom de sarcasmo, relembraria a cafonice da família Tufão e a traste da Nina, a protagonista tom pastel.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 20 de outubro de 2012)

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