O Estado é quem manda: foi dado o recado (!!!)


Em 28 de novembro de 2010 por linhaseversos

“Rio quarenta graus, cidade maravilha,

purgatório da beleza e do caos.”

Dias úteis: ambiguidade contextual para os cariocas no final de novembro. Dia vermelho: ônibus e carros incendiando em pontos diversos da cidade. Dia cinza: fumaça dos automóveis sendo reduzidos a esqueletos. Dia branco: tecidos brancos em lajes e janelas, num apelo por paz. Dia preto: luto por perdas (ou ganhos?). Dia verde: esperança de liberdade das comunidades reféns do tráfico. Dia simples: O Estado manda e ponto. Dia complexo: aglomerado de favelas, resultado de anos de descaso e séculos de desigualdade social. Dia verde amarelo azul e branco: brasileiros acompanham incansavelmente o cerco aos traficantes na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão.

Confesso que fiquei apreensiva. Os inúmeros boatos são inimigos daqueles que têm filhos, parentes e amigos transitando pela cidade em plena guerrilha urbana. As retaliações fatalmente cessariam, contudo a sensação de insegurança e o medo potencializam as forças inimigas transformando uma guerrilha em terrorismo. Começamos a pensar no pior e evitamos voos mais ousados. “O que bem Maria faz em sua casa está em paz”, já dizia minha avó.

A verdade é que o perigo iminente que projetamos, imaginamos e especulamos “sempre” existiu. E pior: sem endereço certo e sem as forças armadas, as polícias militar, civil e federal unidas nessa guerra. Muita gente com sede de sangue e com necessidade de resgatar a credibilidade perante a sociedade. Ou seja, um contingente militar expressivo contra descamisados que não têm nada a perder, a não ser a vida, já tão banalizada pela munição de um fuzil. Mas, se a vida é tudo, só resta rendição diante da contradição.

A visão de centenas de bandidos fugindo pelo mato para o Complexo do Alemão deixava algumas perguntas (mais soltas que eles) no ar. O crime é organizado? O poder paralelo é realmente um poder? Por que o Estado não agiu antes? Os traficantes são tão culpados ou são também vítimas de uma sociedade cruelmente desigual? Vamos a algumas leituras possíveis. É claro que isto é uma crônica, caro leitor, não uma tese de antropologia ou sei lá o quê.

“Na terra de cego quem tem um olho é rei”. Lá no morro, o menino geralmente tem que escolher entre dois caminhos antagônicos: salvação ou perdição. Salvação: estudar na escola pública e frequentar a igreja protestante com “os velhos” para, no final de tudo, ganhar um salário-mínimo e ser invisível aos olhos do “bacana” e do “tio” do asfalto, mas bem visto pelos olhos de Deus. Perdição: ser recrutado pelo tráfico, ganhar dinheiro fácil à custa de viciados e ser respeitado em virtude do calibre que porta. Vida louca, vida breve. Aí, “Inês (de Castro) é morta”. Inês, Maria, Carlota, Joaquina e tantas outras. Uma vez no crime, dificilmente se sai dele.

Enfim, o chefe, traficante “poderoso” naquela hierarquia paralela deles é um moleque igualmente viciado em cocaína, no auge dos seus 25 anos, herói de outros meninos mal nutridos que almejam ser bandidos. Mesmo porque um traficante com 40 anos é o idoso do século XIX. Já viveu muito.

Portanto, não pode ser esse moleque drogado, de 25 anos, o responsável pela entrada de droga nas fronteiras brasileiras. Não são esses moleques que traficam armamento de Israel, dos Estados Unidos, da China, da Rússia. Não são tão organizados e articulados assim, não têm como ser. Não enfrentariam a polícia como muitos esperavam. São providos de racionalidade e (fora as drogas) lucidez.

Longe de defender meliantes ou ser porta-voz de direitos humanos, estou apenas seguindo um raciocínio que me leva a concluir o seguinte: o cerne da violência pode estar no morro, mas a raiz não. As raízes alimentam árvores inteiras e estão espalhadas por aí, provavelmente com belas gravatas de grifes italianas.

No cerne da questão, em “território” de malandro do Alemão, se fosse preciso, se fosse oferecida resistência, lavar-se-ia a cidade com sangue para esfregar na cara de todo mundo que quem manda é o Estado. Impecável na sua atuação, a polícia – uma metonímia generosa – dormirá por um tempo com a sensação de missão cumprida, satisfeita com a resposta da sociedade em apoio à incursão.

Entre sorrisos dos policiais, tanque anfíbio, caveirão, ambulância, apreensões, prisões e tiroteios, os espectadores de plantão assistiram à cena talvez mais tocante: o pai conduzindo o filho após convencê-lo a se render, mostrando, em tempo real, que a família é o alicerce na formação do cidadão, na construção de valores e que é preciso ter sabedoria, perseverança para vencer a crise ética na sociedade.

Depois do “espetáculo”, tivemos direito a um quase “por trás dos bastidores” na mansão de um dos traficantes, com hidromassagem, acabamento em mármore carrara – que dificilmente poderia ser construída através de trabalho honesto, uma vez que o Brasil não é a terra das oportunidades. Já as bandeiras do estado e do Brasil fincadas simbolizaram, sumariamente, território retomado. Foi dado o recado: “O Rio prepara o terreno para 2014 e 2016”. Os políticos não dão ponto sem nó! Ninguém quer perder dinheiro…

Convém lembrar: não basta pacificar o morro e prender ou matar traficante; é preciso educar efetivamente o povo para que os embriões de hoje não se tornem os bandidos de amanhã e remontem os conflitos da cidade partida. É cíclico.

Fiquem com Deus, não com Zeu(s).

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 28 de novembro de 2010)

Comentários (4) | |

4 comentários to “O Estado é quem manda: foi dado o recado (!!!)”

  1. Tweets that mention Entre Linhas & Versos » O Estado é quem manda: foi dado o recado (!!!) -- Topsy.com Disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by Isabelle Ramos, Juliana Izabeli . Juliana Izabeli said: O Estado é quem manda: foi dado o recado (!!!): “Rio quarenta graus, cidade maravilha… http://goo.gl/fb/gfcmq […]

  2. RICARDO BA$$MAN Disse:

    Como diz a músicas: “Rio 40°, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”

    -> 40° de Sol e balas traçantes.
    -> Maravilha pros turistas, políticos, bancários e etc… que se esbanjam com o Dollar e nosso dinheiro público.
    -> Purgatório da beleza e do caos! Beleza=Z.Sul, Praias, Iates, Festas Empresariais etc..
    Caos=Favela, tiroteios, assaltos, mendigos, desemprego, viciados por toda parte, prostituição etc…

    Resumindo VERGONHA NACIONAL, porque o Estado não fez isto antes, Dinheiro, Money, Dollar, Euro…só visam o lucro e a miséria sempre crescendo, é com se fosse varrer o centro da sala e deixar o lixo nos cantos e embaixo da mesa, cadeira etc.
    Fiquem com Deus não com Zeus (apesar de ser um Deus, “Deus da guerra”- referente ao traficante)!

    bjs e abçs fiquem na paz!!!!!!!

  3. kátia Doanato Disse:

    Muitos anos de “Vamos falar de coisas tão belas, de frente pro mar, mas de costas pra favela”, deu no que assistimos pelo televisor. E assim, as perguntas vão surgindo, sem que tenhamos uma resposta definitiva.
    Belo texto. Muito interessante o seu ponto de vista. Um verdadeiro painel de quem conhece, de verdade, as agruras e mazelas da cidade maravilha. O mais triste é ter a certeza de que, quando a mídia deixar de nos bombardear com informações, tudo voltará ao que era antes.
    P.S. Adorei o trocadilho Deus/Zeu(s).
    Beijos.

  4. Rafaela Disse:

    é uma novela… – defendi isto hj na prova de produção textual.
    nossos ‘queridos’ tipos: polícia, bandido, política e mídia.
    todos uma novela beeem chata! ¬¬

    *uma aldeia na frança me aguarda! rs ou uma nuvem com formato de unicórnio; ou, quem sabe, ainda, uma cauda de cometa! =)

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