O Menino Das Meias Listradas


Em 19 de abril de 2010 por linhaseversos

(A meu filho amado, Marcelo Junior meu começo, meu meio e meus fins.)

Desde pequeno, tinha predileção pelos espaços intimistas, reservados. Os vértices da casa eram quase sempre uma boa opção. Usava-os a seu favor, talvez no encontro de arestas abstratas: o mundo externo e o seu eu interior. Um canto terno temperado com esmero e amor. Para aqueles pontos – vazios de decorativos ou mobília – convergiam as angústias de um lar dividido e o aconchego de afetos bem distribuídos.

Quando não enfileirava seus carrinhos de ferro, modelava suas massinhas coloridas. O curioso era a posição em que quase sempre se acomodava: sentado no chão, com as perninhas para trás flexionadas, livres do peso de qualquer outra parte do corpo. Era como se formassem dois ângulos, sugerindo quiçá uma simetria em pensamentos maduros, diante daquela realidade psicológica partida. Muitos laços e uma vida.

Em desenhos, não se destacava. Entretanto, o seu talento com as massinhas de modelar a todos impressionava. Minucioso, o trabalho manual exigia silêncio e concentração. Os bonecos, relativamente pequenos, dispunham de armaduras removíveis, que permitiam a eventual troca, até com outros personagens se necessário. Tudo isso dependia de uma ponte entre observação e imaginação: histórias reinventadas, bonecos habilidosos e suas empreitadas.

As armas, inspiradas em animações orientais, eram melindrosas, de tão pequenas e delicadas. Organizava-os, bonecos e armas, na bandeja de um antigo forno elétrico. Já as outras massas, à espera do reaproveitamento, misturavam-se às vezes, com os tais carrinhos de ferro, na velha cesta de pesca, herdada do bisavô materno. Entre armas e armaduras, o menino não sinalizara, naqueles olhos esverdeados, qualquer violência ou bravura. Ao contrário, refletiam três vértices comunicantes: uma pureza confortante, uma bondade atuante e uma observação constante. (continua página 2)

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Comentários (6) | |

6 comentários to “O Menino Das Meias Listradas”

  1. Irene Lima Disse:

    Muito bem expressado,gostei muito,é uma leitura muito agradável,posso dizer até que é inspirador,pude perceber o como uma mãe repara o desenvolvimento de um filho,acho até muito curioso,parabéns,gostei também do como você conseguiu falar sobre todo o desenvolvimento do seu filho em apenas duas páginas.Você é com certeza uma mãe bem observadora.Texto muito poético e interessante.

  2. Luciana Cantanhede Disse:

    Nossaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!Estou MUDA! LINDO!!!

  3. Juliana Izabeli Disse:

    Merecia um texto… E as meias listradas serviram de canal ou fio que costurou a linha do tempo. 🙂

  4. rafaela Disse:

    ooo, q fofura!! ^_^

    bendito é o fruto de teu ventre. – sem ‘religiosismos’, claro.

    beso

  5. maria georgina Disse:

    E que regrinhas difíceis de jogos! Só ele ganhava,pois quando perpassava uma ameaça de perder o jogo,logo as regras eram mudadas.Os amiguinhos só não desistiam por apreço a ele.MY CUTE BABY!

  6. lia Disse:

    Estou vendo o meu gatinho através das suas entrelinhas. Muito bom! Gostei muito. Ele é formidável! Doce,carinhoso, gentil,muito educado e sensível. Me orgulho muito de tê-lo como neto. Eu o amo muito e não canso de repetir.

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