A(trevo)-me


23 de outubro de 2013 por linhaseversos

Outorgante
Feliz é quem zela pela ignorância
na esperança que ilude a alma errante
e expurga a voz delirante.trevo_de_quatro_folhas-7653

Luz sem t(régua).
Não há em exato medidas
Mas números sugestionados
Réplicas fluorescentes
Vaga-lumes de ideias
Água viva e pensamentos
Que queimam a alma
Um chafariz de abstrações
(até louváveis, direis)
Abnegação
Intolerância
um revolto descontrole.

assim media
assimetria
obliquidade
sorriso coringa
carta fora do baralho
palavra fortuna:
A(trevo)-me.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 15 de agosto de 2013)

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(A)cena


21 de julho de 2013 por linhaseversos

A cena descongela, pois.
Minhas pupilas abnegam,
E lançam, exatas,
Um contorno.papoulas
Fecham com vértices,
Em vertigens,
Na moldura lapidada a tela viva.

Exatidão
Luz
Lentes
Lâmina
Lâmpada
Filamento
Firmamento

Eis o instante sem ruídos,
Sem in(ter)venção:
Uma in(ver)são.
In(ser)ção(?)
O particular fin(do),
Lugar velado,
Acolhe(dor).

Em ventre de memórias.
Vêm, então, os pólens em apontamentos.
Mergulho-os em conchas sinestésicas.
O passado espectro.
Espirais dos tempos.
Um nó que acorda e adormece:
Opreciso nó.

É preciso concha.
(Ex)piração dos minutos mortos(!)
Vida que sela,
E a poeira dispersa,
E o quadro se reveza.
Reminiscências dóceis,
fósseis dos minutos arredios.

Rodamoinhos
Ventos urgentes
lançam- se à frente,
Não retrocedem.
E a varredura…
Papoulas frágeis:
Cálices de vida.

Depois
De pé
Pois

Lápide
a cena
(a)cena.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 21 de julho de 2013)

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Memórias de um apaga(dor) – Poesia


16 de abril de 2013 por linhaseversos

angústiaTudo vale a pena
Se a alma não empena.
Meu trabalho, senhores,
Não fede nem cheira.

Resisto.
Recito.
Insisto.
Incito.
Suplico.
Simplifico.
Fico.

Meu combustível
É etanol,
Não do milho,
Mas da cana:
Sustentável,
Não poluente.
Contudo,
Minhas usinas
Fecham:
Não há vagas. Continue lendo »

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P(acto)


16 de abril de 2013 por linhaseversos

imagesTempos sem
Tempos não
Uma alma de sal
Em pele de charque.

Cactos no meu deserto
Improdução
Cacos transparentes
Resignação.

Reflexos
Lâminas
Escamas.

Desidratada
A folha roga o pranto
Curso da matéria
Papel em branco
Sem rugas borrões
À espera
Repousa absorta
Livre e vulnerável.

Mas existe a hora
Deságua
Nasce o verso
Em prece
Da abóbada alveolar
Dá-se à luz
Sem submissão
Banha-se
Recolhe-se
No leito
Na face
Da palma.

A palavra
Vem
Ventre
Vai
Vagão…

Tempos sim
Tempos são.

P(acto)

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 10 de abril de 2013)

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Menino Jesus


24 de dezembro de 2012 por linhaseversos

É tempo de colocar-te no colo,
Sentir tua alma cândida,
Acalantar-te sob olhos e estrelas,
Ouvir o sino de Jerusalém.

Não é tempo de pedir a ti;
Teu corpo miúdo requer zelo.
Podes ficar em minha casa,
Sob minha guarda.
Minha casa é tua,
Teu templo é meu.
Sou parte do teu rebanho
Quero vigiar tua respiração.
Faz em mim tua sentinela.
Acredita: é só humildade.
Sou eu, inteira, sem frestas e frações.
Despida de qualquer vaidade.

Eis meu canto à espera
Do teu encanto.
Eis minha alma aguardando
A ternura da tua.
Eis minhas mãos aguardando
A feitura que se faz em ti.
Eis minhas pernas prontas
Para carregar-te por léguas.
Eis meu colo (mais uma vez)
A desenhar com braços e ventre
A manjedoura (e)terna.

Vem, meu menino!
Quero ninar a ti somente
E fazer a ceia no coração.
Sob meus olhos, és demasiado humano!
Sob minha vigília, és tão meu quanto meu filho.
(Que bobagem, Menino! Tudo aqui é teu…)
Sob minha fé, és tão divisível quanto o pão.
Sob minha crença, és tão divino quanto o Pai.

Não te espantes com a humanidade…
Ela jamais aprenderá lições de tamanha grandeza.
Não seguirá teus passos revolucionários.
Não experimentará a magnitude dessa entrega.
Não compreenderá a riqueza espiritual.
Não exercerá a justiça em sua plenitude.

Meu Menino, podes adormecer nos meus braços!
Não te queixarás de Deus, dos homens (ou do Poeta).
O eu já não é lírico, filosófico ou religioso.
O eu é uma existência em 24 horas de extrema candura.
Uma necessidade pura de ser e estar para ti.
Eu o mimo, eu o nino.
Eis meu Menino-Deus, meu Deus-Menino.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2012)

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No balanço de “Avenida Brasil”


20 de outubro de 2012 por linhaseversos

O “balanço” da trama de João Emanuel Carneiro segue aqui com a força da polissemia da palavra: balanço da música de abertura, que – vazia de conteúdo, mas em ritmo “irresistivelmente latino-africano” – embalou, agitou, sacudiu os lares e bares brasileiros em horário nobre; balanço de movimento oscilatório, diante das reviravoltas e de cada capítulo encerrado com clímax; por último, balanço de levantamento (também especulativo) de efeitos artísticos, linguísticos, estéticos, políticos, sociais, etc, etc, etc.

Comecemos, caro espectador (leitor), com Avenida Brasil em seu epíteto “a novela das onomatopeias”: o oi oi oi de abertura, o hi hi hi da sarcástica risada de Nilo (interpretado magistralmente por Jose de Abreu) e o som sibilar SSSSS da cobra Carmen Lúcia. O mesmo oi oi oi onomatopaico serviu à metonímia que rendeu pessoalidade ao título do folhetim. O que saía da “boca do povo tupiniquim” era: “Daqui a pouco começa oi oi oi”, “Vou ver a Carminha”, “Tenho que ir pra casa ver o Tufão”, etc.

“Avenida Brasil” foi de zero a dez na escala do “politicamente incorreto”, “socialmente questionável”, “relativamente aceitável”, “humanamente improvável”. A começar pelo paradoxal Lixão: um espaço escuso e acolhedor, escravizador e redentor, aglomerado e organizado, limpo e imundo, longe e perto de tudo, até da Vieira Souto. Com muito riso e pouco siso, o Brasil monogâmico digeriu, entre núcleos da Zona Sul e do subúrbio, a transmutação da traição de Cadinho em poligamia bem esquematizada e a ascensão do triângulo amoroso de Suelen à bigamia (feminina), bem a calhar para escamotear a homossexualidade de Roni. Aliás, a “ariranha” atravessou estações de calça legging estampada (a preço de banana em comércio popular) e barriguinha de fora, comprovando que periguete não sente mesmo frio. “Yes, nós temos bananas e ariranhas!” O senso de humor, é claro, faz valer a mistura conveniente de fauna e flora, em tempos de mulheres inspiradas no mercado hortifrutigranjeiro.

Circulando entre Suelens, Darksons, Tessálias, Olenkas (nomes que atrapalhariam até a alfabetização), conhecemos, ou melhor, reconhecemos o “Divino”, bairro quase personificado, devido à sua essência suburbana nos detalhes: a loja que expõe peças e chama o freguês como feira livre; o salão de cabeleireiro com mistura de cores e estilos para todos os gostos (e “desgostos”, haja vista o corte anos 70 da Ivana); as casas térreas azulejadas; a intimidade se estendendo do espaço privado para o público; o coloquialismo linguístico em elevadíssimo grau, como mais um forte sinal de estereotipação. Aliás, estereotipada também estava a zona sul (soberana e classuda), com suas mulheres – ora fúteis, ora intelectuais, ora privilegiadas de berço e bolso –, que desconhecem o vizinho, mas sabem ser passionais em qualquer endereço, se necessário.

Falando em paradoxo, não sei se o público atentou para o seguinte detalhe: Tufão passou a novela inteira de preto, enquanto Carminha, de branco. Como Yin-Yang (símbolo chinês de integração), os opostos se encaixaram por um acordo de conveniências: consciente para ela; inconsciente para ele. Ela, (yang), ativa; ele, (yin) passivo. Lúcida, ela enxergava e desconfiava; omisso, ele não enxergava (quiçá não quisesse) nem desconfiava.

Carmem Lúcia foi espetacular em sua visceralidade. Não foi à toa que recebeu este nome do seu criador João Emanuel: Lúcia vem de luz (lux, em latim); iluminada como no símbolo yin-yang, não por uma luz divina, mas simplesmente porque, inescrupulosa, era capaz de enxergar sob a pele de cordeiro. Similar à ópera Carmen – clássico de amor e ódio vividos na Sevilha do século XIX –, Carminha é a “cigana” pós-moderna, desprovida de qualquer moral, que seduziu Tufão e o afastou da noiva “cangaceira”. Com nome composto e expressivo, a antagonista não merecia um final tão medíocre, incoerente, ilegítimo. No posto de vilã, seguiria triunfal no gran finale, com seu mais novo milionário e seu mais novo amante manipulável. Às escondidas, em tom de sarcasmo, relembraria a cafonice da família Tufão e a traste da Nina, a protagonista tom pastel.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 20 de outubro de 2012)

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Jujubas, delicados, suspiros coloridos, etc.


13 de outubro de 2012 por linhaseversos

Sábado pós dia das crianças. Como de praxe, acordo por volta das nove horas, saboreio meu café sem grandes variações – suco de laranja, mamão, pão na chapa – e, finalmente, dedico cerca de meia hora à leitura do jornal. Sou, então, surpreendida por um texto de Daniel Azulay: artista plástico que comandou, nos idos dos anos 80, um programa infantil cheio de estímulos e cores na antiga TVE. Tenho afetuosas recordações da atração, em especial da personagem Dona Chicória. Daí emergiu uma súbita vontade de escrever sobre a infância.

Ser criança não é fácil mesmo: tudo é novidade e precisa ser bem explorado. O advérbio “bem”, nesse caso, desfila poderoso pela semântica do texto, isto é, do modo à intensidade com que se experimenta a realidade. E é exatamente aí que os pais cumprem papel imprescindível. São eles que executam a seleção (a priori, rigorosa) dos recursos estimulantes, desde o primeiro brinquedo musical de berço às historinhas narradas antes de dormir. Do joguinho educativo à peça teatral. Do desenho à animação na telona. Da escola (pequena e aconchegante ou superlativa?) à atividade física (Balé, natação ou as duas coisas?). São cores, sons e movimentos. Formas geométricas, encaixes, repetições, memorizações. Pessoas, bichos, plantas e coisas convivendo em sociedade, com regras e condutas.

É preciso ter cuidado com os apelos do mercado. Onde comemorar os aniversários de um, dois, três anos? Casas de festas? Há inúmeras, uma a cada dois quarteirões. Todas bem equipadas para receber a geração que nasce em redes sociais. Brinquedos diversificados: coletivos e individuais, eletrônicos e manuais, pequenos, médios e gigantes, vídeo games à disposição de crianças e adultos. Afinal, vale a máxima: homem só muda de brinquedinho. Moças e rapazes uniformizados para animar a festa, leia-se aplacar a agitação de meninos e meninas de feudos pós-modernos, condomínios mega infraestruturados. Continue lendo »

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Entre amigos


20 de julho de 2012 por linhaseversos


Uma interseção de almas
Na tangência das palmas
Ao peito afoga afaga
O sopro à dor apaga
Mistura paladares em lamas
Caldo de cana fiapos de manga
Ganha outros sabores
Em momentos redentores
Jabuticaba amora tamarindo
Ao correr (ou arrastar) dos anos resistindo.

Transborda no tempo da desobediência
Equilibra-se na linha da incoerência
Lambuza-se com algodão-doce
Despetala-se como se alcachofra fosse
É doce é melada é grude
É boneca de pano é bola de gude
É lápis de cor é pincel é giz de cera
É  bala de coco é pastel de feira
Faz sujeira faz bagunça faz lambança
Contempla ao porto da esperança.

Devorada com refrigerante pipoca
Ao som de festa com milho tapioca
Derramada em cascatas cachoeiras
Entre subidas descidas de goiabeiras
Degustada com chá suco vinho
Aquecida perdoada com carinho
Invade os minutos atropela os ponteiros
Resistir é urgência respeitar é ordeiro
Vive no tempo da responsabilidade
Faz cócegas na barriga da austeridade.

Reserva recuos retiros casulos
Absorve oferta verbos maduros.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 20 de julho de 2012)

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Beijo


18 de julho de 2012 por linhaseversos

Vem nesse beijo
Sentir o etéreo
De luz
De nuvens
De imensidão.

Vem nesse beijo
Buscar o néctar
Do pecado
No céu da boca
Da devassidão.

Vem nesse beijo
Inferir o apelo
Da mudez
Na pele cálida
De abnegação. Continue lendo »

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(Ver)me


22 de abril de 2012 por linhaseversos

O silêncio consciente é perturbador por vezes. Desmembra-se em concurso de reminiscências e invasões de pensamentos indesejados. No sacudir dos lençóis, sobre os quais repousam os conflitos, levantam-se as incertezas em poeira que cega os olhos para o exposto material efêmero. Resta, em última instância, sufocá-los com travesseiros de penas. Penar em pensar como fazê-lo. Uma península do corpo desenha-se no chão, por onde rastejam as serpentes da gênese humana, onde coexistem os vermes dos esgotos da alma, maculada após o percurso (em natureza) profano.

É durante este silêncio perturbador que se revela a maldade antes miniatura. Aquela dor que antes lateja disfarçada e, a seguir, toma toda a matéria corpórea e cada percurso do minuto. Não permite o desvio de sentidos. Todos eles são engolidos (ou tragados como vício) por um sentido superior ao lance oblíquo de retinas – retidas nos noventa graus, perpendiculares ao foco prevalecente em frações da existência-recruta.

Eis a gruta íntima sem lanternas ou quaisquer feixes de luz artificial. O mergulho íntimo e intransferível que prepara o grito mudo, estático; que faz a dor florescer em células malignas. O câncer essencialmente humano. Demasiado humano. O escarcéu. O céu in(terno). Que dispõe mansos cordeiros aos pés de Deus. Uma imperfeição consoante. Uma relativa perfeição destoante do pressuposto inconcusso. (Re)pulsa. Faz-se a valsa avulsa, reclusa. Continue lendo »

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