Apuã


22 de abril de 2012 por linhaseversos

 

Apuã servia-se das árvores e a elas servia. Isso para ele era tão natural quanto beber a água, tomar banho nos rios e ver todos os dias a mesma água: límpida e insípida; receptiva e grandiosa em extensão, força e imponência.

Apuã era ágil em suas caçadas amadoras, peripécias e traquinagens. Mas o menino-índio não sabia o que havia exatamente além das árvores, águas e aldeias. Sabia (isso pensava todos os dias) que um amigo de verdade era o bastante para respirar os minutos da vida e isso estava além, num lugar vazio de suor e sangue; cheio de afeto e cores.

Apuã precisava ir à escola, ir além daquele espaço concreto: além das árvores, águas e aldeias; precisava buscar recursos, leituras, conhecimentos. Aquele seria o dia de experimentar as novidades para entender que a vida não era só o que estava ali: tão perto, tão fácil, tão simples. A vida era, em novos tempos, um complexo de coisas em coisas pequenas que tinham preço de coisas grandes. Todavia, pensaria adiante, que essas coisas eram sem grande valor para quem precisava apenas de aldeias, árvores, águas e amigos. Bastavam a Apuã o gosto e a cor das sementes. Contudo, o menino-índio precisava, segundo os novos tempos, compreender outros setores pelos quais passariam as sementes e deixá-las germinar em saberes. Continue lendo »

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Apascento (entre aspas e acentos)


19 de abril de 2012 por linhaseversos

Falo pouco
Escrevo menos ainda.
Entre bandeiras
E escolhas,
O tempo de agora.
É uma lacuna
Em dias púrpuros.

Não há espaço
Para melancolia
Nem resignação.
O futuro ruge
Enquanto escorrem
Pela garganta
Gotas de limão.

O silêncio
Amargo
Azedo
Reserva
O doce laranja lima.
A voz se interrompe:
Pausa… Prazo. Continue lendo »

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Em (vão)


19 de abril de 2012 por linhaseversos


Meus homônimos perfeitos e minha imperfeição.

Lá se vão devaneios
Sonhos ilusão
Cólera em vão.

E a cada tempo
Refazem-se mais
Em clarões celestiais.

No vão das coisas
Que se vão
De um tempo são.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 13 de abril de 2012)

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Antiquário inconsumível


19 de abril de 2012 por linhaseversos

Casas RuínasCasas viram fósseis
Desbotadas repousam inexpressivas
Faces de ceras
Esquecidas
Inertes
Apenas paredes e chão
Vértices incomunicáveis
Não há janelas nem portas
Só passagem para luzes e sombras
Cada casca uma deslembrança
Um casco um desenho um risco
Um mapa do passado
Telhados não vigiam
Não abrigam
São relapsos
Sob o céu repousam
Jazem sem flor nem lápide
Desculpam-se pelo pó

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 12 de março de 2010)

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BOM SABER


22 de dezembro de 2011 por linhaseversos

Bom saber que o ano acabou, ou melhor, que o terceiro ano acabou.
Bom saber que não haverá o famoso “volta às aulas” no escaldante mês de fevereiro.
Bom saber que a vida de estudante teve seu ponto final.
Bom saber que, a partir de então, haverá a necessidade de se assumir novo posto: universitário, vestibulando (novamente), empregado ou desempregado. (rsrs)
Bom saber, contudo, que os laços afetivos não se desfizeram e que as verdadeiras parcerias se perpetuarão ainda que em memórias ou redes sociais.
Bom saber que as aulas chatas e até as legais passaram.
Bom saber que cada um tem sua cota de participação e responsabilidade para que os momentos se tornem chatos ou legais.
Bom saber que existirão inúmeras coisas chatas que deverão ser cumpridas a rigor, porque a vida adulta é cheia delas.
Bom saber que ficou para trás a tensão diante de calendário, provas e resultados.
Bom saber que virão outros calendários, provas e resultados em meios acadêmicos ou em palcos pela vida.
Bom saber que, a partir de agora, não haverá cobrança de todas as áreas de conhecimento. Será? Continue lendo »

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Signos (Supra)linguísticos


23 de novembro de 2011 por linhaseversos

A convivência com jovens me faz refletir frequentemente sobre as possibilidades da nossa língua ‘mãe gentil’. Com as novas gírias, que nascem e morrem na boca da geração criadora, palavras triviais têm seu significado revitalizado na onda da comunicação globalizada, que atende à expectativa da verbalização minimalista nas redes sociais.

Embora não morra de amores pela sociolinguística, devo assinalar que há diferenças quanto ao nível socioeconômico ou mesmo grupos e tribos pelos quais os falantes circulam. O ambiente escolar, por exemplo, cria inegavelmente um padrão na fala dos adolescentes.

Vejamos alguns casos que me estimularam a escrever este despretensioso texto.
‘Partiu!’: verbo intransitivo que, apesar de estar conjugado na terceira pessoa do singular, imprime ideologicamente a marca da primeira pessoa ‘eu’ e significa “estou indo agora”. Uma substituição do quase ‘arcaico’ “FUI”, sem precisar colocar recadinho na geladeira, é claro; basta publicar no facebook. Exemplo: “Partiu aula de violão…”

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Bordeau(x)


16 de novembro de 2011 por linhaseversos

Mãos maci(lentas)
Na seda pura e preta
Um negrume de ideias fartas
Na epiderme derrama diluído
Um epicentro de emoções lúcidas
O esmalte cintila (ainda)
O desgaste do Bordeaux
Espaços reservados
Em tempos escorregadios
E o sorriso sustenta
Reticências da alma
Luz da essência
Que não se esgota
Que não se resvala
Esverdeja-se.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2010)

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(Des)umanização


16 de novembro de 2011 por linhaseversos

“É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que receber”

Vida de gente

Vida de gado

Vida de cão sem raz(cão).

 

 

 

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2011)

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(Par)tido


16 de novembro de 2011 por linhaseversos

A parte que ama
Caminha sobre
Os cacos do instante
Partido
Tido como parte
Do infinito perdido
Em dor parido.

A parte que ama
Toca o (par)tido
Com os dedos doloridos
Escreve no lápis
Com lápis coloridos
O lapso cometido
Sem passos comedidos.

A parte que ama
Caminha com os pés
Em brasa
Na casa dos casos
Enquanto o acaso
Sobrevoa os cascos
Com asas de azar

Sem poder aterrissar.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2011)

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Quem vai (a)pagar a luz e acender as velas?


27 de julho de 2011 por linhaseversos

(Toma um café, que o mundo acabou faz tempo. Caio Fernando Abreu)

As manchetes anunciam o iminente colapso da potência norte-americana, a morte de Amy Winehouse, o desespero dos chineses que chegam a vender um rim para adquirir produtos da Apple, uma ocorrência de assalto na zona oeste do Rio de Janeiro – planejado por uma das vítimas. Em minutos, remonto cenas em um mosaico que ilustra a fragmentação da sociedade pós-moderna em tempos de globalização e países emergentes.

Vamos lá. Republicanos e democratas, “Um dia a casa cai.” O povo paga o pato, claro. Obama marca seu lugar na História por motivos adversos. Brasileiros vão aos Estados Unidos gastar o dinheiro que julgam ter sobrando. Visto no passaporte agora é mole! “Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza.” (New) american way of life.

Os Estados Unidos são os mesmos que produziram guerras, dilaceraram famílias (inclusive americanas) e deixaram claro “a sem compostura Amy” que não seria bem-vinda ao território da águia. De fato, Amy Winehouse não tinha nada de águia. Deixemos este “atributo” para Lady Gaga. Esta, sim, ganha dinheiro e holofotes por saber ser celebridade no século XXI. Para aquela, ficarão os atributos artístico-musicais, sem dúvida. Num futuro próximo, serão produzidos tributos a Amy, com bebidas liberadas a adolescentes em geral: jovens com ou sem estrutura familiar; rebeldes sem causa ou sem personalidade. “Mais uma dose, é claro que eu tô afim.”

Enfim, o preocupante é a imagem que a imprensa passa ou vende. É a voz coletiva que ecoa. São as especulações que fazem dinheiro em torno de uma imagem cambaleante. São rapazes e moças que postam, em redes de relacionamento, frases mitificando a artista e a pessoa. Para começo de conversa, Amy não tinha nada de amável aparentemente. Sequer assistimos a uma cena na qual se mostrasse carinhosa em público. O palco era simultaneamente um espaço de perdição e redenção. Entre canecas de vinho, um emaranhado de episódios pessoais conturbados deviam lhe pesar sobre a cabeça como o característico coque. Com uma voz grave inconfundível, “a diva trash do soul” expressava, sobretudo, uma fragilidade desencadeada por feridas abertas na alma. Portanto, o que fica de Amy Winehouse não é o exemplo de vida pessoal, mas a obra-prima musical. A imagem a ser eternizada é a artística. Para ser exemplo de vida, faltou amor. Faltou vigília. Faltou família. E (por que não?) juízo. Continue lendo »

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