Por que(,)amor?


Em 29 de abril de 2010 por linhaseversos

Ao meu amor, Jorge Luis

Porque sinto a verdade
Porque a vejo abstrata
Transbordando com suas lágrimas
Lubrificando seus olhos
Quando revelamos um ao outro
Em ressacas de sóbrio amor
Elas lavam resíduos do passado
Regam tudo que há de mais nobre em nós

Não se trata de ciência empirismo
A tal dilatação das pupilas
Ou a aceleração dos batimentos cardíacos
Deixemos isso para os cientistas
Já mapearam o cérebro
Falta o coração
Mas é bom lembrar
Só vale o desafio
Em seu valor metonímico

Os sentimentos de que eu falo
São outro departamento
Nada burocrático nem coletivo
São individuais íntimos pessoais
Indivisíveis em essência
Não se compartilham
Como o pão o vinho
Ou como uma mensagem de esperança
Essas atitudes nos fazem altruístas
Humanamente fraternos
Bons discípulos talvez
Divinos jamais
Isso sim não é nosso departamento

É interessante isto
Podemos passar anos
Bebendo um cafezinho na esquina
Degustando um bom vinho à meia luz
Ouvindo aquela mesma música várias vezes
Lendo um jornal na praia
Falando sozinhos diante do espelho
Fazendo compras no mesmo supermercado
Tudo é hábito

Mas não podemos dizer
Que nos habituamos a alguém
O hábito é introduzido
O amor não
Ele pode até pedir licença
Ou invadir
(Em algumas situações)
Ao encontrar certa resistência

O amor deve ser preservado
Como tudo que nos é caro
O zelo sim vem por meio de atitudes habituais
Mas o amor nunca vai ser hábito
Não posso dizer
‘Vou amar você todas as manhãs’
Se o seu amor vai comigo a todos os lugares
Em presença forte e silenciosa
O amor não faz barulho
Ele se alimenta de uma luz interior
Só eu posso decodificá-la em você
E vice-versa

Ao sintonizar alguém em alma
Sente-se o amor
Declara-se o amor
Subentende-se o amor
lê-se o amor
Mas não se come
Não se bebe
Não se consome o amor
Tal qual se compra uma gravata italiana

O amor não é consumo
É desapego da matéria
É respiração do espírito
E mesmo assim
Não é divino
É humano
É demasiado humano
Porque é preciso sentir doer a carne
Para saber revelar
Para saber distinguir
Para se permitir amar

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 04 de abril de 2010)

Comentários (6) | |

6 comentários to “Por que(,)amor?”

  1. Marcela Disse:

    Muito bonito .. to com saudade de ler poesias .. beijos

  2. Juliana Izabeli Disse:

    Obrigada, Marcela Maria!
    🙂

  3. Jessica Disse:

    Amei, Ju!
    Como não me canso de falar, você escreve muito bem, suas poesias são mil vezes lindas! Me orgulho em dizer que você foi a minha educadora! *-*

    Beijão!

  4. Juliana Izabeli Disse:

    Obrigada, lindinha! E eu fico orgulhosa pela oportunidade de ter colaborado na sua formação.
    Beijos.
    🙂

  5. Milena Simões. Disse:

    Lindíssimo o seu poema. To de queixo caídoo !

  6. Joana Roza Disse:

    Muito lindo professora, chorei lendo! Parabéns, além de ótima professora você é uma ótima escritora! beijões!

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