Quem vai (a)pagar a luz e acender as velas?


Em 27 de julho de 2011 por linhaseversos

(Toma um café, que o mundo acabou faz tempo. Caio Fernando Abreu)

As manchetes anunciam o iminente colapso da potência norte-americana, a morte de Amy Winehouse, o desespero dos chineses que chegam a vender um rim para adquirir produtos da Apple, uma ocorrência de assalto na zona oeste do Rio de Janeiro – planejado por uma das vítimas. Em minutos, remonto cenas em um mosaico que ilustra a fragmentação da sociedade pós-moderna em tempos de globalização e países emergentes.

Vamos lá. Republicanos e democratas, “Um dia a casa cai.” O povo paga o pato, claro. Obama marca seu lugar na História por motivos adversos. Brasileiros vão aos Estados Unidos gastar o dinheiro que julgam ter sobrando. Visto no passaporte agora é mole! “Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza.” (New) american way of life.

Os Estados Unidos são os mesmos que produziram guerras, dilaceraram famílias (inclusive americanas) e deixaram claro “a sem compostura Amy” que não seria bem-vinda ao território da águia. De fato, Amy Winehouse não tinha nada de águia. Deixemos este “atributo” para Lady Gaga. Esta, sim, ganha dinheiro e holofotes por saber ser celebridade no século XXI. Para aquela, ficarão os atributos artístico-musicais, sem dúvida. Num futuro próximo, serão produzidos tributos a Amy, com bebidas liberadas a adolescentes em geral: jovens com ou sem estrutura familiar; rebeldes sem causa ou sem personalidade. “Mais uma dose, é claro que eu tô afim.”

Enfim, o preocupante é a imagem que a imprensa passa ou vende. É a voz coletiva que ecoa. São as especulações que fazem dinheiro em torno de uma imagem cambaleante. São rapazes e moças que postam, em redes de relacionamento, frases mitificando a artista e a pessoa. Para começo de conversa, Amy não tinha nada de amável aparentemente. Sequer assistimos a uma cena na qual se mostrasse carinhosa em público. O palco era simultaneamente um espaço de perdição e redenção. Entre canecas de vinho, um emaranhado de episódios pessoais conturbados deviam lhe pesar sobre a cabeça como o característico coque. Com uma voz grave inconfundível, “a diva trash do soul” expressava, sobretudo, uma fragilidade desencadeada por feridas abertas na alma. Portanto, o que fica de Amy Winehouse não é o exemplo de vida pessoal, mas a obra-prima musical. A imagem a ser eternizada é a artística. Para ser exemplo de vida, faltou amor. Faltou vigília. Faltou família. E (por que não?) juízo.

O desequilíbrio no eixo familiar não raro deixa sequelas na estrutura emocional do indivíduo, uma vez que este é também o todo; é, pois, coletivo. Esse feixe de ideias me faz passear pelo mosaico e me debruçar sobre o desfecho do tal assalto no Rio de Janeiro, planejado por uma das vítimas: uma mulher de classe média que desejava “apenas” o book de formatura da filha, contudo não tinha dinheiro para pagar a quantia previamente acordada com a fotógrafa. Lamentável. Ficam algumas interrogações. Tratava-se de uma aquisição de valor material ou emocional? Não ter o álbum em posse seria frustrante para quem: mãe ou filha? O não sinalizaria impotência ou descaso? Valeria a pena jogar o próprio nome na lama (da consciência) por causa de mil e tantos reais? Causa nobre ou fútil? Decerto as respostas variam dependendo do ponto de vista: sociedade, vítima e ré.

Está claro que os pais precisam acordar para os princípios que norteiam a nobreza de caráter. Que o legado não está nem em diplomas muito menos em books ou festas regadas a glamour, mas na maneira como os conhecimentos são processados, digeridos, debatidos, questionados e apreendidos. Um álbum caro pode sim representar mera ostentação, já que há até poucos anos, pagava-se por uma ou duas fotos. Fora isso o momento era registrado por flashes amadores. Talvez falte tempo para as verdadeiras demonstrações de afeto, para os diálogos que esclareçam planejamento, orçamento familiar e suas prioridades. Mostrar as diferenças entre valores e preços não significa reportar-se à Idade Média ou excluir-se da era cibernética.

E os chineses? Na corrida tecnológica, as versões mais avançadas em intervalos cada vez menores têm acirrado a disputa pelos produtos com grande visualização mundial. Bem-vindo à globalização. Tudo é fabricado na China mesmo. Então, como devem funcionar as ofertas no país da mão de obra a “preço de banana”? Um rim em perfeito funcionamento por uma maçã mordida versão 5?

É o que eu canso de repetir em casa: “depois que você dá a primeira mordidinha na maçã, já era”. Nossa era: quem vai (a)pagar a luz do planeta e acender as velas para as nossas almas no limbo? Back to Black.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 26 de julho de 2011)

Comentários (2) | |

2 comentários to “Quem vai (a)pagar a luz e acender as velas?”

  1. Claudyane Alves Disse:

    É… A professora e as seus textos que vão direto na alma…
    Parabéns por mais uma obra-prima!
    São poucas crônicas que eu paro pra ler, mas as suas… não dá pra não clicar em “ler mais”!
    Mil beijos!

  2. RICARDO BA$$MAN Disse:

    Ótima reflexão, se todos pensassem um pouco mais com cautela…talvez o mundo seria menos problemático! bjs e abçs

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