Rezando a cartilha da secretária Cláudia Maria Costin


Em 30 de março de 2010 por linhaseversos

“Bote a boca no trombone”

Salas de aula superlotadas, ventiladores barulhentos, bebedouros com água quente, turmas sem aula por conta da carência no quadro docente, apenas um servidor para acumular a função de inspetoria e mais umas pérolas da nossa caríssima secretária municipal de educação.

Esta é a fórmula da vitória: como fazer um professor adoecer e exterminar a desvalorizada categoria.

No relatório final da última reunião do Conselho de Professores, estão explicitados alguns devaneios da secretária. Entre eles, algo nada satisfatório acerca do repasse de verbas para a compra de equipamento: a (e em) princípio, só professores indicados pela biometria terão direito a microfone; posteriormente a intenção é abrir licitação e comprar para todos.

Até lá, boa parte, inclusive eu, estará licenciada ou em tratamento. Sem desprezar o adendo: a lindinha fez questão de esclarecer que o microfone será da escola, não do docente. Resta o contrassenso: todo professor precisa de um microfone pra chamar de seu. Afinal, a sala de aula é seu palco, com direito a alguns tomates podres e um generoso troféu abacaxi, é claro. Pelo menos, nós não iremos guerrilhar com eles como os alunos fazem no recreio, desperdiçando comida e, consequentemente, o dinheiro dos contribuintes.

Outra imperdível: Cartilha “Guia da Educação em Família – Educar para Crescer”. Vocês hão de concordar que a terminologia é instigante. Praticamente uma redundância. Educar é fazer crescer, caso contrário, a significação genuína da palavra cai por terra. Sem contar que a palavra guia é no mínimo sugestiva para o contexto pedagógico. Daqui a pouco, a secretária lança um livro de autoajuda: Cem dicas para educar seu filho. De repente, ela fica reconhecida mundialmente, vende mais que a autora de Crepúsculo e ingressa na política educacional da Suíça. O mais revoltante é a maneira como verbalizou suas dicas para os responsáveis dos alunos:

Exija que o professor passe sempre lições de casa e bote a boca no trombone.

Os trabalhos de casa são fundamentais para a apreensão e domínio de conteúdos, entretanto vale ressaltar que os alunos pouco fazem os trabalhos em aula, quase sempre não apresentam o material – recebido gratuitamente – , quebram os lápis uns nos outros, fazem bolinhas de papel com as folhas de caderno, cospem pedaços de borracha, jogam cadeiras para o alto etc. Contudo, eu não posso “botar a boca no trombone”, senão a CRE pede relatório, o conselho tutelar marca “reunião” extraordinária e o aluno fica “traumatizado”.

Mas tudo bem. Eu, estressada, sem voz e com remedinho tarja preta, não incomodo ninguém, não é mesmo? Nem mesmo tenho forças para “botar a boca no trombone”. Que tal uma licitação para narizes de palhaço? Em 2011, poderemos comemorar o dia do circo a caráter…

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