Um apagão apaga(dor)?


Em 28 de março de 2010 por linhaseversos

Manhã de domingo. As fotos divulgadas em slides na internet revelam o espírito de coletividade. Às oito e meia da noite de ontem, o mundo apagou as luzes pelo planeta Terra. Um discurso não verbal apelativo reitera a problemática do aquecimento global. Nossa mãe Água está na UTI de um hospital público. E a pergunta é: De que lado você está?

Pois é, caríssimo leitor. A resposta de uma parcela generosa da população mundial talvez não seja tão ecologicamente correta, tão altruísta assim. A começar pela liderança dos países ricos, não tenho assistido ou lido grandes iniciativas a respeito. Em seguida, estamos nós, reles mortais e contribuintes. Contribuintes de impostos altíssimos e contribuintes da realidade dramática que vivemos (ou a que sobrevivemos).

Essencialmente, não abrimos mão de nossos carros; de solicitar os serviços de delivery, que não dispensam as embalagens de isopor; de usar as sacolas plásticas de mercado – preferencialmente uma por dentro da outra para sustentar o peso; de todos os aparelhos eletrônicos que permitem a nossa inserção no mundinho virtual. Fora a deseducação de pessoas que insistem em jogar lixo nas ruas e encostas. Um alívio: já aderi à coleta seletiva. Menos mal. Ufa!

Somos produto do capitalismo: a balança comercial favorece o acúmulo de bens materiais. Somos tomados por uma onda de consumismo, muitas vezes desmesurado. O individualismo está marcado a ferro e fogo nas nossas peles. Quando acontece uma eventualidade que nos exponha ao risco, é a nossa pele que procuramos livrar. Os nossos problemas são muito íntimos e redimensionados, não abrem espaço para o alheio. É aquele velho discurso metaforicamente popular: uma andorinha sozinha não faz verão. Estamos até conscientes da urgência de mudança de atitudes, não de pensamentos e teses acadêmicas apenas. Contudo, cada um está, essencialmente, do lado de si mesmo e a única rotação que gera alguma mobilização diz respeito aos 360 graus no entorno do umbigo.

Quando vem uma onda de manifestação coletiva em prol do planeta, achamos ilusoriamente que apagar as luzes por alguns minutos resolve algum problema. Como se isso fosse um apagão apaga(dor). Jantar à luz de velas é no máximo uma solução romântica com todos os seus pré-requisitos do século XIX.

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 28 de março de 2010)

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