(Ver)me


Em 22 de abril de 2012 por linhaseversos

O silêncio consciente é perturbador por vezes. Desmembra-se em concurso de reminiscências e invasões de pensamentos indesejados. No sacudir dos lençóis, sobre os quais repousam os conflitos, levantam-se as incertezas em poeira que cega os olhos para o exposto material efêmero. Resta, em última instância, sufocá-los com travesseiros de penas. Penar em pensar como fazê-lo. Uma península do corpo desenha-se no chão, por onde rastejam as serpentes da gênese humana, onde coexistem os vermes dos esgotos da alma, maculada após o percurso (em natureza) profano.

É durante este silêncio perturbador que se revela a maldade antes miniatura. Aquela dor que antes lateja disfarçada e, a seguir, toma toda a matéria corpórea e cada percurso do minuto. Não permite o desvio de sentidos. Todos eles são engolidos (ou tragados como vício) por um sentido superior ao lance oblíquo de retinas – retidas nos noventa graus, perpendiculares ao foco prevalecente em frações da existência-recruta.

Eis a gruta íntima sem lanternas ou quaisquer feixes de luz artificial. O mergulho íntimo e intransferível que prepara o grito mudo, estático; que faz a dor florescer em células malignas. O câncer essencialmente humano. Demasiado humano. O escarcéu. O céu in(terno). Que dispõe mansos cordeiros aos pés de Deus. Uma imperfeição consoante. Uma relativa perfeição destoante do pressuposto inconcusso. (Re)pulsa. Faz-se a valsa avulsa, reclusa.

Os gomos, tenros, precisam ser rompidos até se alcançar o caroço. Duro, resistente, arredio. Lá está o cerne. A semente que reúne a bondade e a maldade. Há um pouco de cada neste complexo. Contudo, a última, emergente do tal silêncio perturbador, precede a linha curva do negrume da noite.

Despertar é, pois, despir-se para então vestir a matéria-prima de luz e inspirar a bondade que prepara o espírito para a fotossíntese diária. Porque a maldade aqui tratada, da qual o homem procura se esconder, não é grande apreciadora do sol, tampouco do fogo purificador ou do seu abraço redentor. Não é aliada de elucidações. É alucinógena até. Alimenta-se da frieza noturna, da face que o outro não pode ver.

É preciso encarar-se em catarse, ver-se ao avesso, (ver)me em revérbero, dar-se, doer-se, dorso, derme, verso (in)verso, vértice, prisma. Para aceitar-se, acertar-se como obra-prima divina. Então, faz-se o encontro verdadeiro entre criador e criatura. Porque o homem (senão) cria suas dores e as bebe (ou degusta) em goles de levedura. Experimenta seu próprio veneno, cuja base em fermento justifica sua performance carnal e profana, da qual Deus não o pode salvar.

  (Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 11 de julho de 2010)

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