Uísque versus vinho


Em 27 de novembro de 2013 por linhaseversos

Chile

Uísque é bem diferente de vinho. O primeiro é casual, não raro se resume em ato solitário e obedece a um rito prosaico, sem firulas ou bossas. Diria até vulgar no afrouxar de gravatas. O segundo não. Tem uma identidade que o reafirma em posto de divindade das bebidas. O vinho é senhor absoluto de sua criação. É reflexivo: criador e criatura. É mais artesanal do que industrial. É sinestésico, uma vez que, depois da musicalidade, só ele ganha substância ao se posicionar como sujeito do significativo “harmonizar”. O vinho é a poesia que se bebe.

O uísque respeita a máxima: “Antiguidade é posto”. O vinho não. É “gauche”.

O vinho depende da uva, da safra, do rótulo, da terra, dos oceanos, do clima, da garrafa, da rolha, dos taninos, do decanter, da taça, do ambiente, do senso, da sensibilidade. O vinho burla, subverte, brinca. O vinho vai da roda-gigante à montanha-russa. O vinho quer ser ele mesmo, quer rótulo e não quer. O vinho quer apreciação do paladar. Quer que apreciadores concordem, discordem, recordem. O vinho casa com a iguaria ou se divorcia dela.

O vinho quer certidão e certificação. O uísque, gratidão, por suportar mais um dia, mais um problema… O vinho quer fidelidade, relacionamento sério. Uísque é casual, válvula de escape, relaxante de final de noite. Uísque entorpece o cidadão; vinho enobrece a ocasião. Vinho pode ser cálice, mas nunca dose. Vinho tem aromas: de montanha, lareira, madeira, barrica… Tem gostos: de tâmara, abacaxi, framboesa, jabuticaba, sal do Pacífico… Ah! O vinho… Sinestesia transcendental.

Uísque é galante: tenta seduzir com o barulhinho do gelo e o ar presunçoso de bem sucedido; contudo, está exposto em prateleiras de qualquer mercado. Está sempre de pé. Pronto para servir! Vinho é pedante, altivo: os melhores estão dispostos cuidadosamente em adegas climatizadas. O uísque vai ao encontro do consumidor. O apreciador vai ao encontro do vinho. Bebe-se uísque. Degusta-se vinho.

Pai, não afaste de mim esse cálice!

(Juliana Izabeli Bulhões – Rio, 26 de novembro de 2013)

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